Política agrícola é tema de debate no Parlamento Europeu

UE anuncia ajuda milionária a países pobres durante debate sobre a crise mundial de alimentos no Parlamento Europeu. Surtem efeito adaptações na política agrícola do bloco para produção de alimentos. Já se foi definitivamente o tempo dos alimentos baratos, advertiu no último dia 22 o comissário europeu para o Desenvolvimento e Ajuda Humanitária, Louis Michel. A escalada dos preços só poderá ser contida se forem tomadas medidas rápidas por toda a comunidade internacional, salientou o comissário numa sessão do Parlamento Europeu sobre a crise do preço dos alimentos.

A título de ajuda de emergência, a Comissão Européia prometeu aos países mais pobres uma ajuda de 117 milhões de euros para alimentos. Michel ressaltou, no entanto, serem importantes medidas de longo prazo para fazer frente à crise. Para isso, citou a expansão da agricultura nos países em desenvolvimento.

Durante o debate, foram apontadas falhas na política agrícola da União Européia. Durante décadas, Bruxelas garantiu a estabilidade de preços, comprou excedentes de produção, subsidiou exportações e acumulou enormes reservas.

Isto, no entanto, acabou. Fazem parte do passado as “montanhas de manteiga” e os “lagos de leite”, que refletiam os absurdos da política agrícola européia. As reservas da União Européia para instabilidades de mercado foram drasticamente reduzidas. Em 2007, por exemplo, os estoques de manteiga e leite em pó foram completamente gastos. Isto havia acontecido pela última vez em 1968.

A QUESTÃO DOS BIOCOMBUSTÍVEIS

Verdes e entidades ambientalistas voltaram a criticar a meta definida pela UE em 2007, segundo a qual até 2020 um décimo dos combustíveis fósseis consumidos no bloco deve ser substituído por biocombustíveis. Em resposta, Joseph Daul, presidente do Partido Popular Europeu, lembrou que o cultivo de combustíveis vegetais perfaz apenas 2% da produção agrícola na Europa.

Para que atinja a meta prevista até 2020, o bloco de 27 países precisa cultivar apenas 17% de sua área agrícola, lembrou. Daul salientou ainda que esta porcentagem pode ser diminuída substancialmente através do uso de resíduos, como palha ou lodo de esgoto.

Para acelerar a produção de cereais na UE, os ministros da Agricultura haviam decidido em 2007 suspender a obrigatoriedade de deixar de cultivar áreas agrícolas (esta medida havia sido introduzida há 15 anos para evitar a superprodução). Os produtores puderam voltar a plantar todos os seus campos, com o que se espera uma safra de cereais de ao menos 10 milhões de toneladas a mais em 2008.

Isto no entanto não foi suficiente para o Reino Unido, que há vários anos reivindica uma reforma e a liberalização da política agrícola européia. O deputado Graham Watson, líder do Grupo Liberal, exigiu o fim do “protecionismo agrícola e das restrições à exportação”. Segundo ele, somente mudanças na política agrícola da União Européia ajudarão a encontrar uma solução para a crise, e não a desistência de utilizar mais combustíveis.

COOPERAÇÃO COM A AMÉRICA LATINA

Bruxelas prepara encontro de cúpula entre países da UE e América Latina, a ser realizado em Lima, Peru. Comissão e Conselho Europeus apostam que relações bilaterais entre o bloco e países latino-americanos tendem a melhorar.

Há quase dois anos, em meados de 2006, quando chefes de governo e Estado dos países da UE e da América Latina estiveram reunidos, as divergências entre os representantes dos dois continentes eram sensivelmente distintas: enquanto o presidente venezuelano, Hugo Chávez, aproveitava a ocasião para atacar a Europa e os EUA, os representantes da UE insistiam em não ceder no debate acerca dos subsídios agrários.

Em vez de decisões comuns em relação aos países latino-americanos, os europeus preferiram, até agora, assinar acordos bilaterais com o México, o Chile e em breve com o Brasil. Martin Schulz, presidente da bancada socialista no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, acentua a necessidade ? por ocasião do próximo encontro de cúpula EU-América Latina, que acontece em maio próximo ? de uma disposição maior em negociar e aproveitar as chances históricas.

Segundo o deputado europeu, a UE precisa da América do Sul na luta contra as mudanças climáticas e na defesa da floresta amazônica. “Em nenhum outro lugar do mundo que não a América Latina, a Europa conta com tamanho apoio e ressonância no combate aos problemas atuais. Por isso, não podemos mais nos dar ao luxo de, desta vez em Lima, somente repetir o que o premiê austríaco Schüssel disse em Viena, por ocasião do último encontro: que ótimo que podemos falar uns com os outros”, lembra Schulz.

Problemas sociais, proteção ao meio ambiente e questões energéticas são alguns dos assuntos a serem abordados entre os chefes de governo e Estado presentes na capital peruana, nos dias 15 e 16 de maio. Jacques Barrot, comissário da UE, salienta a importância do enorme potencial do continente latino-americano, tão rico em matéria-prima.

“Pela primeira vez, a economia da região apresenta, há cinco anos, um crescimento em torno de 5%. Os orçamentos públicos conseguem, desta forma, se recuperar. As reservas se consolidam e os problemas sociais da região, já conhecidos, começam a ser solucionados. Não esqueçamos, porém, que mesmo assim ainda vivem no continente 200 milhões de pessoas abaixo do limite da pobreza”, diz Barrot.

A União Européia é o maior financiador de ajuda ao desenvolvimento a países latino-americanos, e as empresas européias têm no continente o principal destino de seus investimentos em todo o mundo. O parlamentar espanhol José Ignacio Salafranca lembra que 40% de todos os cereais cultivados no mundo vêm da América Latina. Embora nem apenas os fatores econômicos sejam relevantes, diz o deputado, uma vez que a Europa está, politicamente, mais próxima do continente latino-americano do que de qualquer outra região do planeta.

“Para a UE, a América Latina não é apenas um mercado, mas também um continente ao qual estamos ligados pela história e com o qual dividimos valores que deveriam ser implementados em todo o mundo, tais como liberdade, democracia, respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito”, afirma o conservador Salafranca.

Para reafirmar tais valores, o parlamentar acredita que o próximo encontro de cúpula em Lima deverá debater seriamente sobre uma solução para a crise dos reféns de guerrilheiros na Colômbia, entre outros o caso da ex-candidata à presidência Ingrid Betancourt. “Nós nos solidarizamos com todos os prisioneiros na Colômbia. Com todos os reféns, inclusive, obviamente, com Ingrid Betancourt. Eles precisam ser libertados com urgência”, acentua o deputado espanhol.

Já Martin Schulz, parlamentar alemão social-democrata, defende uma aproximação imediata dos governos europeus com Cuba. “Vamos acabar com isso e nos reconciliar, pois uma mudança através da aproximação é uma política melhor do que a isolação no estilo Bush”. A opinião de Schulz, no entanto, não é compartilhada pelos parlamentares de partidos conservadores em Estrasburgo.

Para vários deputados do Parlamento Europeu, o bloco de 27 países deveria aproveitar os esforços dos vários governos latino-americanos de esquerda em prol de uma certa independência dos EUA, para ocupar espaço na região. Segundo os parlamentares, os europeus não devem deixar o lugar ser ocupado pelos chineses, que investem em massa na região, compram matérias-primas e adentram os mercados locais com produtos de baixo custo.

FONTE

Deutsche Welle
Anke Hagedorn e Bernd Riegert