Mudanças no clima afetarão positivamente a pecuária paulista

Uma pesquisa desenvolvida na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, revela que com o aumento futuro da temperatura na Terra, causado pelas mudanças climáticas, aumentará também o potencial de produção pecuária no Estado de São Paulo. O crescimento, contudo, virá acompanhado de uma maior oscilação de produção ao longo do ano, o que exigirá uma preparação tecnológica dos produtores muito maior.

A pesquisa do agrônomo André Santana Andrade elaborou cenários futuros para a produção de pastagens da espécie Brachiaria brizantha cv. Marandu em função de projeções de mudanças climáticas para o estado de São Paulo. "Buscamos identificar as principais vulnerabilidades do sistema de produção frente a tais mudanças e propor alternativas para minimizar os impactos", afirma Andrade.

O projeto revelou que, em geral, as projeções mostraram um aumento futuro no potencial de produção. Com base no clima dos dois modelos de simulação avaliados, PRECIS e ETA-CPTEC, houve um aumento médio de 42% e 36%, respectivamente, na produção potencial climática de pastagens. "Isso significa que, se as pastagens forem manejadas semelhantemente ao modelo de Cruz e colaboradores, que desenvolveram o modelo vegetal, haverá um aumento global de produção de forrageira no estado de São Paulo".

O modelo de regressão empírico de Cruz e colaboradores é um projeto de associação do clima com a produção de forragem divulgado em 2011 em artigo, no periódico Pesquisa Agropecuária Brasileira. Andrade associa essa projeção de aumento ao fato de que, de forma geral, a maioria das forrageiras mais cultivadas no estado são tropicais, que são favorecidas com aumento de temperatura.

Nas simulações realizadas durante o estudo, foram considerados alguns cenários de emissões de gases de efeito estufa. Esses cenários são estabelecidos nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU). "Consideramos os cenários A2 (alta emissão) e B2 (baixa emissão). Para se realizar as projeções, foi necessário ter uma base de dados observada, que considerava o clima atual. Os dados do período de 1963 a 2009, de 23 estações meteorológicas, constituíram esta base". Os períodos simulados foram de 2013 a 2040, e de 2043 a 2070.

Grandes oscilações de produção

Apesar do aumento anual previsto na pesquisa, Andrade alerta que a variação da produção irá aumentar entre estações e entre anos. "O aumento absoluto será maior na estação chuvosa, tornando a estacionalidade de produção mais marcante. Tal resultado é mais evidente nas simulações com o modelo ETA-CPTEC e para solos com menor capacidade de retenção de água". Segundo o pesquisador, os resultados variaram muito entre regiões, especialmente para cenários do ETA-CPTEC. Regiões mais quentes, como oeste do estado, tem maior potencial de produção, porém terão menor incremento relativo no futuro.

O pesquisador afirma que, em relação à oferta de carne e leite, que são os principais produtos obtidos das pastagens, não se espera impactos preocupantes quanto ao clima no estado de São Paulo, uma vez que o potencial de produção será maior. Os produtores rurais, classe mais diretamente ligada à produção de pastagens, terão que lidar no futuro com mais tecnologia para se adaptar às maiores oscilações de produção. "Mesmo que o potencial absoluto seja maior, a necessidade de alternativas e técnicas de manejo e conservação serão cada vez maior. Destaca-se que estas considerações se referem à valores médios e tendências nos dados", completa.

Mais informações

Pesquisador André Santana Andrade
E-mail: andre.santana.andrade@usp.br

Fonte: Agência USP de Notícias
Fernando Pivetti – Jornalista