Opções de integração de sistemas produtivos levam sustentabilidade ao campo

O aumento da produção de alimentos, fibras e combustíveis vegetais sem a abertura de novas áreas e sem causar danos ambientais é um dos grandes desafios atuais da pesquisa agropecuária. Uma possível alternativa que vem sendo estudada pela Embrapa em todo o país é a integração lavoura-pecuária-floresta, conhecida como iLPF.

Trata-se da diversificação e integração de diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais dentro de uma mesma área. Pode ser feita em cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, de forma que haja benefício mútuo para todas as atividades.

“Quando a gente fala de integração lavoura-pecuária-floresta, estamos falando de uma estratégia de produção que é dividida em quatro possíveis modalidades: integração lavoura-pecuária (iLP); lavoura-floresta (iLF); floresta-pecuária (iLP); e a junção dos três componentes de produção (iLPF). Não necessariamente o produtor tem que fazer iLPF. Em função das características de cada região, da facilidade de transporte de produtos, ele vai utilizar a modalidade que mais se adéqua à sua propriedade”, explica o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Maurel Behling. Entre os principais benefícios atribuídos à iLPF estão a otimização e intensificação da ciclagem de nutrientes no solo, a melhoria do bem-estar animal em decorrência do conforto térmico, diversificação da produção, aumento da produção de grãos, fibras, carne, leite e produtos madeireiros e não madeireiros, maior eficiência de utilização de recursos naturais, redução da sazonalidade do uso da mão de obra, redução na pressão pela abertura de novas áreas com vegetação nativa e a flexibilidade, que permite ser adaptado para diferentes realidades produtivas.

Pesquisas em Mato Grosso

Há cinco anos a Embrapa criou a Embrapa Agrossilvipastoril, um Centro de Pesquisa localizado em Sinop, no norte de Mato Grosso, que tem como principal foco, desenvolver pesquisas com os sistemas integrados de produção. Para isso, a Unidade conta hoje com uma equipe de pesquisadores que trabalha de maneira integrada e multidisciplinar estudando diferentes aspectos da iLPF.

No campo experimental da Unidade foram instalados dois grandes experimentos de iLPF. Um deles, com 50 hectares, tem o foco na pecuária leiteira, e o outro, com 90 hectares, trabalha com a pecuária de corte. Em ambos os casos o objetivo é desenvolver pesquisas de longo prazo, que trarão respostas importantes sobre o comportamento do sistema.

No experimento que avalia a iLPF na produção leiteira, foram feitos três diferentes cenários. Em um deles não há árvores, em outro as árvores foram plantadas somente nas bordas dos piquetes e no último há fileiras triplas de eucalipto a cada 15 metros. Este arranjo se repete quatro vezes, sendo que em cada tratamento é adotada uma rotação de culturas de forma a ter dois anos de pastagem e dois anos de lavoura. Com esta organização, o experimento sempre conta com duas parcelas com pecuária e duas parcelas com agricultura.

No primeiro ano de agricultura é cultivado milho consorciado com braquiária ruziziensis na safra — quando é produzida a silagem para os animais — e feijão-caupi na safrinha. Na safra do segundo ano o milho para colheita de grão é consorciado com a braquiária piatã, capim que formará a pastagem dos anos seguintes.

Já o experimento de iLPF para gado de corte conta com diferentes tratamentos, que vão desde lavoura, pastagem e silvicultura feitos de maneira isolada (monocultura), até todas as quatro possíveis configurações de sistemas integrados (iLP, iPF, iLF, iLPF). Como componente florestal, utiliza-se o eucalipto, na agricultura planta-se soja na safra e milho consorciado com braquiária na safrinha e a pecuária é feita com pastagem de capim marandu.

Nos dois experimentos, pesquisadores da Embrapa e estudantes de pós-graduação realizam inúmeras avaliações da interação entre os diferentes componentes. Como exemplo tem-se a dinâmica de carbono e de água, as características físico-químicas e a microbiologia do solo, indicadores de sustentabilidade, emissão de gases de efeito estufa, microclima, desempenho da lavoura, das plantas forrageiras e das espécies florestais, manejo integrado de pragas, doenças e plantas invasoras, aspecto econômico do sistema integrado de produção, bem-estar e sanidade animal, etc.

Resultados obtidos nos primeiros dois anos de pesquisa, por exemplo, já indicam diferenças no comportamento de novilhas mestiças de holandês com gir quando colocadas em áreas com e sem acesso à sombra.

“Normalmente os animais que estão na sombra param de pastejar entre 10 horas e 10h30. Voltam para o pastejo lá pelas 12 horas, ficam um pouco na sombra e voltam para o pastejo. Às 15 horas eles já estão pastejando nas áreas sombreadas. Já os animais que estão no sol, sem acesso à sombra, param de pastejar às 9h ficam parados perto da aguada e voltam ao pastejo somente às 16 horas. Então, a sombra faz com que o animal consuma mais forragem”, explica a pesquisadora da Embrapa Agrossilvipastoril Roberta Carnevalli.

De acordo com Roberta, o estudo desfaz o mito de que animais que têm sombra acessível ficam muito tempo parados e não consomem forragem. “Eles param porque o estresse pelo calor é tão grande que não conseguem consumir forragem naquele momento. Quando maior a temperatura, mais esse comportamento se agrava”, afirma.

Pesquisa mostrará as emissões de gases de efeito estufa na iLPF

Desde o início da safra 2013/2014, uma pesquisa desenvolvida na Embrapa Agrossilvipastoril busca quantificar as emissões de gases causadores do efeito estufa em sistema de integração lavoura-pecuária-floresta e em sistemas agroflorestais (SAFs)

O objetivo é saber a quantidade de emissões de cada sistema agrícola para que se possa comparar os sistemas convencionais com as tecnologias de baixo carbono.

“Assim será possível calcular o potencial de mitigação dessas tecnologias e subsidiar pesquisas para o desenvolvimento de pagamentos de serviços ambientais, mecanismos de venda de crédito de carbono (Mecanismos de Desenvolvimento Limpo – MDL) e políticas públicas”, explica o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Renato de Aragão Ribeiro Rodrigues.

Para esta pesquisa, além do método de coleta manual realizado em diferentes pontos, a Embrapa Agrossilvipastoril conta com um equipamento único no Brasil que faz automaticamente a coleta e análise de gases de efeito estufa no campo.

“Com esse novo sistema teremos uma representatividade temporal muito maior e dados muito mais fidedignos. Representa ainda a introdução de tecnologia de ponta em Mato Grosso e no Brasil. É o primeiro equipamento desse tipo no Brasil e passamos a integrar uma rede internacional de pesquisa em gases de efeito estufa na agricultura, junto com países como Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos”, explica Rodrigues.

Área de integração cresce em Mato Grosso

Como a iLPF é uma das tecnologias sustentáveis presentes no Plano Agricultura de Baixo Carbono (Plano ABC) do governo federal, é cada vez maior o incentivo para que mais produtores adotem a estratégia, inclusive por meio de linhas de crédito específicas. Com isso, nos últimos anos vem crescendo a área com sistemas integrados em Mato Grosso.

Estudo realizado pela doutoranda da Universidade de Hohenheim Juliana Gil, em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril e com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), mostrou que o estado tem cerca de 500 mil hectares com estes sistemas, sendo 89% da área com iLP, 5% com iPF, 5% iLPF e 1% iLF. Esta área representa quase um quarto da extensão estimada para este tipo de estratégia de produção em todo o país.

Entre as propriedades que fazem a integração de sistemas no estado, nove são acompanhadas pela Embrapa e tornaram-se Unidades de Referência Tecnológica e Econômica (URTEs). Espalhadas pelas diferentes regiões e diferentes biomas de Mato Grosso, elas são utilizadas em pesquisas e também são instrumentos de transferência de tecnologia. Todo o trabalho é desenvolvido em parceria com o Sistema Famato e conta com aporte financeiro da rede nacional de fomento à iLPF, composta pela Cocamar, John Deere e Syngenta.

Nestas URTEs são realizados dias de campo e visitas técnicas e muitas vezes elas são palco de módulos da capacitação continuada de técnicos. Por meio destes cursos, agentes de assistência técnica e extensão rural da iniciativa pública e privada de todo o estado aprendem mais sobre os sistemas integrados de produção.

“Temos atualmente seis grupos de técnicos sendo capacitados, englobando os principais polos de produção agropecuária do estado. Temos 285 técnicos cadastrados em nosso banco de dados e 129 deles são frequentes nos 26 módulos de capacitação já realizados nas diferentes regiões”, afirma o pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão Flavio Jesus Wruck, pioneiro nos trabalhos com iLPF em Mato Grosso.

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Fonte: Embrapa Agrossilvipastoril
Gabriel Faria – Jornalista
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E-mail: agrossilvipastoril.imprensa@embrapa.br