Do tempero na mesa ao cosmético na bolsa

Horticultura é o nome da área que responde pela produção de uma grande variedade de culturas comestíveis ou ornamentais. Além da olericultura, que se refere exclusivamente à produção de hortaliças, há subáreas que abrangem a produção de frutas, de cogumelos comestíveis, de plantas ornamentais, de mudas diversas, e de plantas aromáticas e condimentares.

As espécies que compõem este último grupo apresentam usos variados que vão desde a aplicação na agricultura na forma de cordões de isolamento ou caldas repelentes de pragas, que minimizam a necessidade de agrotóxicos e garantem alimentos mais saudáveis, até a utilização de óleos essenciais em produtos industriais como medicamentos e cosméticos. Elas estão, portanto, muito presentes na vida das pessoas, ainda que poucos saibam disso.

Diante de um perfumado molho pesto, fica evidente a utilização do manjericão, uma planta muito utilizada como condimento na culinária italiana e que aportou, com sucesso, nas cozinhas brasileiras. Porém, o manjericão tem outras aplicações que extrapolam o universo gastronômico como o emprego do óleo essencial nas indústrias de cosméticos e de fragrâncias. Em razão das propriedades antimicrobianas e repelentes, o óleo essencial também tem serventia como ingrediente de fórmulas utilizadas na agricultura para prevenir insetos em lavouras ou conservar alimentos após a colheita.

Há muitas plantas que, além de compor o aroma e o sabor de diversos pratos, são fontes de princípios ativos utilizados em medicamentos, e matéria-prima de cosméticos, perfumes e produtos de limpeza ou higiene pessoal", enumera o sagrônomo Warley Nascimento ao pontuar a importância de incentivar a realização de pesquisas científicas que ampliem o conhecimento sobre essas espécies com múltiplas formas de utilização.

As substâncias valorosas para os óleos essenciais extraídos das hortaliças aromáticas e condimentares estão presentes no metabolismo secundário da planta que, diferente do metabolismo primário, não tem participação direta nas funções básicas para a sobrevivência do vegetal, muito embora contribua substancialmente para as funções adaptativas, relacionadas às interações da planta com o meio ambiente. Por exemplo, o metabolismo primário contém açúcares e proteínas que são essenciais para o seu pleno desenvolvimento, enquanto o metabolismo secundário apresenta substâncias que estão associadas à defesa e perpetuação. "Em algumas plantas, quando ocorre o ataque de insetos, o metabolismo secundário aciona a liberação de substâncias que são exaladas pela planta para repelir a praga", esclarece a bióloga Lenita Lima Haber.

Somada à ação repelente, essas substâncias presentes no metabolismo secundário das plantas – também responsáveis por conferir o cheiro e o sabor às plantas aromáticas e condimentares – contribuem para a atração de polinizadores, proteção contra raios UV e inibição da germinação de outras espécies que podem concorrer por água e nutrientes.

Contudo, para que as plantas expressem o melhor potencial de produção dessas substâncias, é necessário considerar fatores como clima e solo que têm interferência direta na composição química da planta e, consequentemente, na proporção e na qualidade do óleo essencial. "Quando se trabalha com espécies aromáticas é importante um conhecimento aprofundado da planta para que o cultivo e a pós-colheita favoreçam os teores desejáveis de óleos essenciais", pondera Lenita ao explicar que a extração pode ser feita a partir das folhas, das raízes, das flores ou de outras partes, dependendo da espécie.

Além dos benefícios na área agronômica, os óleos essenciais extraídos de plantas aromáticas e condimentares possuem utilização prática em diversos setores industriais. No segmento da alimentação, por exemplo, eles podem ser utilizados como aromatizantes em bebidas e alimentos, mas ainda há a possibilidade da planta ser aproveitada na forma desidratada como chá ou condimento, entre as quais estariam o alecrim, orégano, erva-doce, boldo, hortelã, tomilho, louro, salsinha e vinagreira.

As propriedades bactericidas e fungicidas de algumas plantas aromáticas despertaram também o interesse da indústria farmacêutica, que utiliza seus compostos químicos em medicamentos. "Os benefícios do alho no combate à gripe, por exemplo, já estão consolidados", exemplifica a bióloga. Por outro lado, plantas como vetiver, malva, lavanda e capim-limão têm espaço garantido na perfumaria, assim como as flores gerânio, capuchinha e amor-perfeito, que além das notas em perfumes ou águas de colônia, ocupam um nicho restrito na gastronomia gourmet.

"O cultivo de plantas aromáticas e condimentares e a extração de óleos essenciais apresentam uma possibilidade muito interessante de entrada em um mercado em expansão atendido basicamente por importações", indica Lenita ao relatar que países vizinhos como Peru e Chile estão entre os grandes fornecedores da indústria nacional. De acordo com ela, embora possua um grande potencial de produzir esses insumos de alto valor agregado, atualmente, o Brasil se destaca somente na exportação de óleo de laranja e outros cítricos.

Fonte: Embrapa Hortaliças
Paula Rodrigues – Jornalista
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