América do Sul planeja “falar” russo e indiano para expandir produção

O agronegócio sul-americano tem portas abertas, mas muito trabalho pela frente para ganhar mercado fora do Mercosul e dar sobrevida ao crescimento verificado nos últimos anos. No entanto, depois de se aproximar da China, se necessário, vai "falar" russo e indiano como estratégia para embarcar mais carnes e grãos. As discussões do primeiro dia do 2º Fórum de Agricultura da América do Sul – que é realizado pelo Agronegócio Gazeta do Povo e terminou no dia 28 de novembro de 2014, em Foz do Iguaçu (PR) – mostraram que Rússia e Índia representam oportunidades chave para a região nesta década.

Embora a construção das relações comerciais esteja em articulação, agentes públicos e privados olham para o mercado indiano como saída para a produção agrícola. Epara o russo como zona de expansão para a pecuária. Mas faltam acordos comerciais, ajustes sanitários e até abertura de novas pontes aéreas que facilitariam viagens de negócios.

"O Brasil tem a chance de aproveitar a janela das restrições russas à importação de carne norte-americana e europeia [de um ano] para estabelecer mercado", disse Rinaldo Junqueira de Barros, que atuou quatro anos como adido agrícola do Brasil em Moscou e participou do painel "O campo e o Brics". O acordo que o Mercosul negocia com Moscou é um passo decisivo nesse sentido.

A participação brasileira nas importações russas de carne suína, por exemplo, subiu de 21% para 46% do ano passado para cá, enquanto a da União Europeia (UE) caiu de 61% para 7%, mostrou o diretor-geral do Instituto de Pesquisas de Mercados Agrícolas, Dmity Rylko, palestrante que veio da Rússia para o Fórum. Sua exposição mostrou que o Brasil nada contra a maré. A Rússia está aumentando a produção de carnes e reduzindo as importações. Tem interesse em manter relações comerciais com a América do Sul para exportar trigo.

A agricultura sul-americana volta-se para a Ásia. "A Índia trocou de governo e está implantando programas para voltar a crescer a taxas de 7% a 8% ao ano. Evai importar mais óleo bruto [combustível], óleo de soja e açúcar", apontou Lalit Khulbe, executivo da indiana United Phophorus Limited (UPL), que está no Brasil há nove anos. Após investir US$ 150 milhões no mercado brasileiro de fertilizantes e sementes, a empresa vê no Brasil sua principal zona de expansão, complementa.

A ampliação dos negócios no Brics é um projeto coletivo, apontou. "A meta é dobrar os negócios envolvendo os cinco países, que hoje somam US$ 42 bilhões [ano], em três anos." Como a Rússia, a Índia também quer ampliar exportações para a América do Sul, com produtos de Tecnologia da Informação (TI) e medicamentos, citou.

O crescimento da participação da América do Sul no mercado de grãos e carnes mostra que a região vem ampliando fortemente a produção, apontou o coordenador do Fórum de Agricultura, Giovani Ferreira, na conferência de abertura do evento. "O mercado mundial da pecuária cresceu 20% e a participação sul-americana avançou o dobro [46%]. Enquanto o mercado de grãos avançou 51%, a América do Sul chegou a 74%", afirmou.

Os números mostram salto produtivo a partir da comparação dos números de 2005/06 e da projeção para 2014/15, com base nas estatísticas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Os números mostram ainda que a demanda internacional segue linha de crescimento, o que torna a queda nas cotações de soja e milho registrada no último ano uma questão de ajuste entre oferta e demanda. O Paraguai – considerado melhor termômetro do impacto das variações nos preços internacionais na América do Sul, por praticar preços em dólar – recebia US$ 430 por tonelada de soja em 2013 e agora faz média de US$ 330.

Mesmo com provas de seu potencial produtivo, a América do Sul tem problemas internos primários, conforme produtores e especialistas entrevistados durante o evento. "Plantamos trigo e os preços caíram um terço na colheita", criticou Ivonir Lodi, agricultor em Medianeira. Ele atribui a uma política interna inconsistente o fato de os preços variarem tanto e de o Brasil, mesmo importando metade do trigo que consome, registrar cotações que mal cobrem custos.

Fonte: Gazeta do Povo
José Rocher – Jornalista