Extrato de planta pode ajudar na produção de soro antiofídico

Embora existam soros específicos para as diferentes espécies de cobras, o processo de produção de todos eles segue o mesmo padrão. Primeiro, o veneno da serpente é introduzido no organismo de um cavalo, que reage produzindo anticorpos. Estes são retirados do seu sangue e formam o soro antiofídico. A quantidade de peçonha inoculada não é capaz de matar o animal, porém frequentemente gera um processo inflamatório local, comprometendo seu estado geral de saúde e sua produção de células de defesa. O veterinário e pesquisador Marcelo Abrahão Strauch, do Instituto Vital Brazil (IVB), está à frente de um projeto que tem como objetivo diminuir as lesões e os edemas apresentados pelos equinos durante o processo de imunização.

Ele explica que diversas pesquisas – realizadas no Laboratório de Farmacologia das Toxinas, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pelo professor Paulo de Assis Melo — vêm demonstrando que o extrato da planta Eclipta prostrata tem compostos ativos com propriedades antiofídicas, que poderiam diminuir a ação do veneno no organismo dos animais, sem comprometer o processo de produção de anticorpos. O estudo foi contemplado no edital Apoio à Inserção de Mestres e Doutores em Empresas Sediadas no Rio de Janeiro, da Faperj, sob a coordenação geral do professor e médico Antônio Joaquim Werneck de Castro, do IVB.

Para investigar os possíveis benefícios da Eclipta prostrata, Strauch conta que foram feitos dois experimentos. Em cada um deles, 24 cavalos foram divididos, aleatoriamente, em dois grupos: grupo controle, no qual o processo de imunização ocorreu somente com a introdução do veneno; e grupo tratado, no qual os animais foram inoculados com uma solução contendo veneno e uma mesma quantidade do extrato da planta. “Resumidamente, pudemos concluir que o grupo tratado apresentou 75% menos casos de edemas locais quando comparado com o grupo controle”, comemora o pesquisador.

Se por um lado se observou que a planta estudada é mesmo capaz de neutralizar em grande parte os efeitos locais do veneno, por outro surgiu a dúvida se isso atrapalharia a qualidade e a quantidade de anticorpos produzidos pelo organismo do cavalo. Como explica o pesquisador, o extrato tem um flavonoide que reduz a ação de algumas enzimas do veneno. “É tudo interação enzimática. Como o veneno é uma secreção da serpente, composta de enzimas e proteínas que em contato com o organismo prejudicam sua normalidade, atacando, por exemplo, a musculatura. Já o extrato, por sua vez, atua por interferir na atividade enzimática do veneno, reduzindo-lhe a atividade.” Strauch, no entanto, frisa que isso não atrapalha a produção de anticorpos. “Estando ativos ou atenuados, o sistema imune do animal é capaz de detectar a presença bioquímica dos constituintes do veneno e por isso produz anticorpos.”

O pesquisador conta que fizemos diversas análises bioquímicas com o plasma sanguíneo dos animais participantes do estudo e observaram que não houve prejuízos para a produção do soro antiofídico. Pelo contrário, as amostras de sangue dos cavalos sem qualquer tipo de lesão apresentaram maior concentração de anticorpos quando comparadas com as amostras dos animais que tiveram edemas ou abcessos. A possível explicação, segundo Strauch, é que sem um processo inflamatório, o animal fica mais saudável e com o sistema imunológico mais eficiente.

Para Strauch, os ataques de animais peçonhentos constituem um problema de saúde pública para os países em desenvolvimento, devido a alta incidência, gravidade e principalmente sequelas deixadas nos pacientes. “Estudos epidemiológicos mostram que, ao contrário do que se imagina, o número de acidentes ofídicos não tem sofrido queda significativa no Brasil, e ocorrem primariamente nas áreas rurais, onde trabalhadores e moradores estão constantemente expostos aos acidentes com serpentes. No País, ocorrem aproximadamente 30 mil acidentes desse tipo por ano, a maior incidência (89%) deles por serpentes do gênero Bothrops, como as cobras jararaca, jararacuçu, caiçaca, urutu e cotiara, todas peçonhentas”, relata o veterinário.

Segundo o pesquisador, as substâncias venenosas são compostas geralmente por proteínas e enzimas que interagem com o organismo atingido, podendo resultar em manifestações locais, como hemorragia, mionecrose e edema, além de efeitos sistêmicos, como falência cardiovascular, sangramento generalizado e insuficiência Renal. O tratamento recomendado há mais de um século é o emprego de soro polivalente ou soro específico, caso se identifique o gênero da serpente. “Embora o sistema de produção do soro antiofídico já esteja bem dominado pelos pesquisadores, ainda há desafios a serem enfrentados para melhorar todo o processo, e diversas estratégias têm sido aplicadas na tentativa de reduzir o dano tecidual nos cavalos. Nosso projeto traz resultados promissores nesse sentido e se firma como uma linha de pesquisa relevante tanto para a área veterinária quanto para a área médica”, conclui.

FONTE: Boletim da Faperj
Elena Mandarim – Jornalista