Relações, percepções e interferências humanas no bioma Cerrado

Na região do Cerrado habitam cerca de 26 milhões de pessoas. Os primeiros habitantes chegaram por volta de 15.000 anos atrás. A ocupação da região do Cerrado passou de um processo lento, no século XVII, movido pelo interesse do ouro e pedras preciosas, a um processo acelerado nos últimos 50 anos com a construção de Brasília e a adoção de uma política de expansão agrícola baseada num modelo de exploração fundamentalmente extrativista e, por vezes, predatório.

A intensa ocupação por populações e atividades, até então inexistentes, vêm transformando as paisagens do bioma e os modos de vida das populações tradicionais, causando impactos ambientais e sociais imensuráveis.

Em conseqüência da transformação da paisagem e dos modos de vida, as populações tradicionais compostas por indígenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros, sertanejos e ribeirinhos, foram forçadas a migrações constantes. As populações tradicionais que ainda sobrevivem vêem-se confinadas às Terras Indígenas ou áreas marginais, adaptando seus modos de vida a disponibilidade de recursos e aos conflitos locais.

Algumas regiões do norte de Minas Gerais compõem exemplos ilustrativos da transformação da paisagem e dos modos de vida onde, sobretudo, a partir da década de 1970, incentivos fiscais promoveram a implantação de extensos plantios de eucaliptos nas chapadas, confinado grande parte da população aos fundos de vale.

A transformação do ambiente também provocou impactos rompendo processos biológicos importantes, como os serviços de polinização e dispersão de espécies, fundamentais para a frutificação de plantas do Cerrado, fonte de alimentos para manutenção do ciclo reprodutivo da natureza e para atender as necessidades de comunidades que vivem em estreita relação com o ambiente.

A transformação do ambiente ocorrida no norte de Minas Gerais alterou as relações do homem com o ambiente e impulsionou o êxodo rural, temporário ou permanente, incitado pela falta de emprego. Dentre as alterações nas relações do homem com o ambiente cita-se a atividade carvoeira exercida por famílias como alternativa para a sobrevivência, a qual é estimulada pelo preço do carvão, mesmo de espécies nativas.

Apesar da transformação do ambiente, o conhecimento dos agricultores tradicionais, acumulado por gerações, ainda possibilita o desenvolvimento de sistemas de cultivos complexos, adaptados às condições locais que satisfazem as necessidades de subsistência sem depender da mecanização, de fertilizantes e de pesticidas.

A difusão de sistemas de cultivos complexos, adaptados às condições locais e o fortalecimento das boas relações homem-ambiente podem promover um desenvolvimento econômico ambientalmente equilibrado e socialmente justo utilizando a mão de obra local e diminuindo, por conseguinte, o êxodo rural.

Entretanto, a difusão desses sistemas de cultivo e o fortalecimento das boas relações homem-ambiente, requerem do agente difusor mais do que conhecimento sobre o funcionamento desses sistemas, é necessário entender as relações dos agricultores com a paisagem e apreender a percepção destes em relação ao espaço, nunca desconsiderando o saber local.

AUTORIA

Marina de Fátima Vilela
E-mail: marina@cpac.embrapa.br

Fabiana de Góis Aquino
E-mail: Fabiana@cpac.embrapa.br

Pesquisadoras da Embrapa Cerrados (Planaltina – DF)