Eliana Cardoso


Um a um, todos os grandes fornecedores brasileiros de soja foram proibidos de exportar para a China. Hoje, praticamente todas as vendas da commodity para o mercado chinês estão paralisadas, sob a alegação de que as cargas estariam contaminadas com sementes tratadas com fungicidas acima do grau aceito pelas autoridades sanitárias chinesas – zero de mistura. Há fortes suspeitas de que os importadores chineses ou o próprio governo estão usando critérios fitossanitários para barrar a entrada do produto brasileiro seja para resolver problemas que nada tem a ver com o Brasil – como estoques muito altos – ou assegurar vantagens comerciais, já que a soja que está chegando aos portos do país hoje foi adquirida quando as cotações estavam bem mais elevadas.

Até abril passado não havia notícia de carregamentos brasileiros de soja que barrados pela China. O padrão de tolerância usado na classificação brasileira não é muito diferente do internacional, e admitia a tolerância de até 3 sementes por quilo do produto. Esse é o nível aceito pelas autoridades dos EUA, o país que mais exporta soja no mundo e que têm um nível de sofisticação tecnológica e capacidade de fiscalização muito superior à do Brasil. Se os exportadores americanos seguiram o padrão de seu país, é provável que muita soja americana vendida à China também fosse reprovada pela súbita intolerância das autoridades chinesas. Não se têm notícia de que cargas americanas tenham sido rejeitadas.

O início da temporada de caça à soja supostamente contaminada coincidiu com a viagem de o presidente Lula ao país. A apreensão de navios brasileiros causou constrangimento aos membros do governo que estavam na comitiva presidencial e o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, aceitou o diagnóstico de contaminação do governo chinês e atribuiu o fato à “má fé” dos empresários. Como as primeiras cargas partiram do porto do Rio Grande, chegou-se à conclusão de que havia problemas em apenas um terminal portuário. Foi uma visão incorreta ou otimista. Novas cargas, desta vez embarcadas no porto de Santos, o maior do país, foram igualmente rejeitadas. E, por último, as que saíram do Porto de Paranaguá tiveram a mesma sanção. Como resultado, estão temporariamente impedidas de vender soja à China as maiores tradings que operam no país – Cargill, Bunge, ADM e Louis Dreifus Asia, que respondem por 80% das exportações. Grandes produtores e fornecedores, como a Cooperativa Agrícola Mourãoense (Coamo), e outras tradicionais cooperativas paranaenses figuram hoje na lista negra chinesa.

Talvez imbuído da boa vontade para com a China, depois da visita da maior missão comercial brasileira em décadas, e talvez para não tirar o brilho dos acordos assinados com aquele país, o governo brasileiro não reagiu à altura da gravidade do problema. A China consome 20% das exportações de soja do Brasil. A “tolerância zero” dos chineses ou não existia antes, ou passou a existir agora. Em ambos os casos, as autoridades chinesas deveriam ter informado a suas congêneres brasileiras que estava mudando seus critérios ou estipulado um prazo para que o governo do Brasil pudesse tomar as providências necessárias para a adequação aos padrões exigidos.

A fiscalização brasileira é sabidamente falha e carente de recursos e pessoal, mas nada disso parece explicar o virtual banimento da soja brasileira do mercado chinês, até porque o Brasil é o segundo exportador mundial e não têm enfrentado barreiras desta magnitude junto aos outros compradores de peso, igualmente rígidos em regras fitossanitárias, como a União Européia. O fato de que o governo chinês pretende desaquecer sua economia, a redução de 46% no volume de soja comprado do exterior, indícios de altos estoques e restrição creditícia aos importadores são pistas que não podem ser desprezadas sobre a real motivação da atitude chinesa. Não há dúvida de que se o Brasil não melhorar rapidamente seu sistema de fiscalização, dará pretexto a atitudes semelhantes por parte de outros países, em outros produtos. Mas os chineses são comerciantes como outros quaisquer e sabem defender seus interesses. É preciso que o governo examine com toda a atenção se a “má fé” existiu apenas do lado de cá do balcão. As dificuldades levantadas pela China até mesmo para encontrar espaço na agenda das autoridades sanitárias para uma discussão com representantes do Ministério da Agricultura brasileiro que estarão no país mostra descaso para com as dificuldades criadas unilateralmente para o Brasil.

Jornal Valor Econômico – 16/6/2004
http://www.valor.com.br

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