Mônica Scaramuzzo e Alda do Amaral Rocha De São Paulo


Incerteza sobre demanda chinesa por soja reduz ritmo de venda de sementes e adubos para nova safra

A recusa de soja brasileira pela China significa mais do que a redução nos volumes de embarques do produto para aquele país. O episódio – provocado pela descoberta de sementes tratadas com fungicida em carregamentos de soja – deve ter reflexos na próxima safra de grãos do Brasil, a 2004/05, porque atingiu em cheio o ânimo do produtor brasileiro que já andava meio abalado. Essa “depressão” já se revela nos números do setor. As vendas de insumos, como sementes e fertilizantes, estão em ritmo mais lento que o de 2003, ano em que as perspectivas para o preço da soja, principalmente, e do milho eram mais favoráveis.

Até o momento, foram negociadas 35% das 20 milhões de sacas de sementes de soja estimadas para o plantio da nova safra, informou ao Valor Ywao Miyamoto, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem ). No mesmo período do ano passado, entre 60% e 70% das sementes de soja já estavam negociadas.

Para Myamoto, o agricultor não está antecipando as compras de sementes, como fez nas últimas três safras, por causa das baixas nos preços da soja no mercado internacional. O recuo tem origem na perspectiva de uma safra recorde de soja nos Estados Unidos e na incerteza quando à demanda chinesa depois que o país recusou a soja brasileira e que importadores da China ameaçaram quebrar contratos de compra do grão.

As compras antecipadas de fertilizantes também deram uma esfriada, segundo Eduardo Daher, diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Até abril, as vendas somaram 4,5 milhões de toneladas, quase o mesmo volume de 2003. A previsão para maio é de que as vendas repitam o desempenho do mesmo período do ano passado, de 1,4 milhão de toneladas. Já em junho podem ficar abaixo do mesmo mês de 2003 (1,5 milhão de toneladas). O setor, que cresceu 19,3% ano passado, atingindo 22,8 milhões de toneladas, deverá crescer mais timidamente em 2004: cerca de 5%.

Um dos motivos para as compras mais lentas é o aumento dos preços dos fertilizantes em função da alta do dólar, observa Anderson Galvão, analista da Céleres.

Segundo ele, as operações de troca de fertilizantes por grão também estão em ritmo mais lento em relação ao ano passado, quando as perspectivas de bons preços estimularam os negócios. Neste caso, o desânimo é das indústrias esmagadoras, que financiam o plantio da soja, fornecendo fertilizantes, e estão avessas a riscos.

“A indústria tomou default da China e dos produtores”, diz fonte de uma companhia do setor, referindo-se ao fato de alguns produtores terem quebrado contrato este ano por ter vendido a soja a preços mais baixos. Segundo essa fonte, a empresa em que atua paralisou as operações de “soja verde” (venda antecipada do grão para financiar a produção).

“Este ano, o produtor vai ter dificuldade para ganhar dinheiro de trading”, afirma Galvão.

Um dos maiores produtores de algodão e soja do país, Adilton Sachetti, afirma que “a crise da China jogou um balde de água fria no ânimo dos agricultores”. Segundo ele, há um receio generalizado no Centro-Oeste do país em investir em soja. “E se a China fizer o mesmo no próximo ano?”, questionou. Ele afirma que muitos produtores têm dificuldade de garantir financiamento devido à quebra da safra na região em 2003/04.

“Se os preços da soja não reagirem, o produtor terá de reagir, senão fica inviável deixar para comprar insumos no segundo semestre por conta da logística”, lembrou Reinoldo Rocha, gerente de insumos da Cocamar (Cooperativa Agropecuária de Maringá).

A venda de sementes para milho também foi afetada. Quando a soja começou a cair, houve um movimento para a cultura de milho, segundo Cássio Camargo, da Associação Paulista dos Produtores de Sementes (APPS ). Mas nas últimas semanas, praticamente não tem havido negócios. Estima-se no mercado que as vendas estejam num ritmo 15% mais lento que no mesmo período de 2003.


Jornal Valor Econômico – 21/6/2004
http://www.valor.com.br

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