Da Redação


Os diferentes segmentos do agronegócio gaúcho estão sentindo os reflexos negativos da demora na solução do impasse que envolve o embargo chinês às exportações brasileiras de soja. Além do produtor, afetado pela queda dos preços, todo o complexo sofre retração de atividade. “Nossa economia está muito voltada à agropecuária, que por sua vez, está voltada para a soja. No ano passado, 60% das exportações gaúchas partiram do complexo agropecuário”, afirma o secretário substituto da Agricultura, Caio Rocha.
Menos dinheiro no bolso do produtor significa menos faturamento para os fornecedores de equipamentos. O presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers), Cláudio Bier, já está revendo a prospecção de crescimento para 2004. “No início do ano prevíamos um incremento de cerca de 25% para o setor. Agora, a estiagem no Sul, o excesso de chuva no Centro-Oeste, o preço menor da soja e o embargo na China nos fazem acreditar em resultados semelhantes a 2003”, salienta.
Embora tenha publicado a Instrução Normativa nº 15, que regulamenta os níveis de sementes nos carregamentos do grão, o governo brasileiro ainda não conseguiu resolver os problemas que entravam as negociações com os chineses. O embargo praticamente paralisou as negociações interna e externa de soja no Rio Grande do Sul. A ausência do desembarque de caminhões no Porto de Rio Grande acabou interferindo nos negócios das empresas fabricantes de fertilizantes. “Ficamos 20 dias com deficiência no transporte de 3 mil toneladas ao dia”, conta o presidente do Sindicato das Indústrias de Adubos do Rio Grande do Sul (Siargs), Torvaldo Marzolla Filho. Segundo ele, essa movimentação está se normalizando na medida em que a instrução normativa do governo está sendo cumprida.
A queda nas cotações da saca, que alcançaram R$ 53,00 há cerca de um mês e agora atingem em torno de R$ 40,00, está acompanhada de outros prejuízos efetivos, diz o presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto. “Isso inclui as despesas com fretes e a permanência de navios carregados no porto”, lembra.
O problema com os chineses também pode prejudicar os investimentos para a próxima safra. “Essa demora é preocupante, os preços caíram e a comercialização está truncada”, analisa o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro), Rui Polidoro Pinto.
A exportação de soja conjunta entre o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai é uma das saídas para enfrentar o mercado chinês, acredita o presidente da Farsul. “O Mercosul tem representatividade no mercado internacional para evitar uma maior queda nos preços”, observa. Para ele, o problema com a soja reside na China e não no Brasil. “Há cerca de 40 dias, os chineses enfrentaram a morte de crianças causada por leite importado contaminado, e a partir daí, surgiu o rigor com os produtos da alimentação humana”, comenta Sperotto.
Os pequenos produtores estão preocupados com o vencimento dos contratos bancários. Segundo o presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), Ezídio Pinheiro, a primeira parcela para os sojicultores vence no final deste mês. Em função da menor lucratividade com a soja, a federação solicitou a prorrogação dos financiamentos de custeio e investimento. “Os agricultores telefonam para a Fetag porque não sabem o que fazer com a soja”, declara.
Os problemas envolvendo as exportações brasileiras de soja para a China iniciaram no final de abril, quando o país asiático recusou carregamentos saídos do Porto de Rio Grande sob a alegação de mistura de sementes tratadas com agroquímicos aos grãos. Desde então, já são 23 as empresas proibidas de vender o produto. Com duas novas recusas confirmadas na terça-feira, sobe para 359 mil toneladas o volume de soja rechaçado pelo governo chinês. O Ministério da Agricultura calcula em US$ 1 bilhão os prejuízos para a cadeia produtiva. A China é o maior comprador individual de soja do Brasil e chegou a importar, em 2003, 6,1 milhões de toneladas. Desse total, cerca de 2 milhões partiram do Rio Grande do Sul, calcula Caio Rocha. “Em 2004 já mandamos para a China 1 milhão de toneladas. Outras 1,4 milhão de toneladas estão no porto”, constata.

Lula pode intervir para resolver impasse

O Palácio do Planalto está estudando a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intervir junto às autoridades chinesas para resolver o impasse da venda de soja para a China. “O assunto está sob análise do Palácio do Planalto”, disse ontem o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que apresentou ao presidente a atual situação da comercialização de soja. Também participaram da reunião o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
“Esse incidente perturba a intenção manifesta de ambos os governos de ampliar as relações. E nesse sentido que o Palácio do Planalto está avaliando a possibilidade do presidente ter uma conversa com o governo chinês”, explicou Rodrigues. Ele admitiu estar preocupado com a suspensão das importações de soja brasileira por parte de 23 empresas, o que praticamente suspendeu as vendas para Pequim.
“As exportações já estão em cerca de US$ 1 bilhão abaixo do esperado”, contou o ministro, ponderando, entretanto, que “a maior parte se deve à queda de preço da soja em razão do aumento da safra nos Estados Unidos e na América do Sul”. Ainda assim, ele disse que o impedimento da entrada da soja brasileira já afetou as exportações do produto.
O ministro da Agricultura classificou como “questão técnica” o impasse comercial, em uma resposta aos produtores que consideram a decisão chinesa como uma estratégia para redução de preços do produto e renegociação dos contratos. “Na verdade, a questão não é política”, disse o ministro, relatando conversas que teve ontem com o vice-ministro das Relações Exteriores da China, Yi Xiaozhun, em São Paulo. “De forma reinterada, ele mostrou que o assunto tem caráter técnico”, contou o ministro.
O vice-ministro sinalizou que se as autoridades chinesas ficarem convencidas “de que tecnicamente o Brasil está certo, o assunto estaria resolvido”. “Portanto, não é um assunto político, é um assunto técnico. E é dessa maneira que o governo brasileiro está trabalhando”, completou. O Brasil, disse, tem uma “defesa muito forte” para pedir o fim do embargo. “Estamos defendendo nossa instrução normativa perante o governo chinês como instrumento mais que suficiente para suspender o embargo”, afirma. Ele espera uma solução no curto prazo, “possivelmente na próxima semana”.
A crise levou o governo a convocar uma reunião hoje, no Ministério da Agricultura, com representantes de produtores, cooperativas, indústrias e exportadores. A idéia é elaborar um documento com argumentos técnicos que possibilitem ao governo brasileiro pedir o fim do embargo. O documento deve servir de base para o contato telefônico do presidente Lula com autoridades chinesas.
A assessoria do Ministério da Agricultura informou ontem que os técnicos embarcarão amanhã para Pequim, onde irão negociar com o governo local o fim do embargo imposto à soja. O secretário de Defesa Agropecuária, Maçao Tadano, e o assessor especial para assuntos internacionais da secretaria, Odilson Ribeiro, se reúnem com autoridades chinesas na segunda e terça-feira da próxima semana.
Ontem, autoridades do Ministério da Quarentena da China recusaram a entrada de mais quatro carregamentos de soja brasileira devido. Não ficou claro, entretanto, se entre esses quatro carregamentos estavam incluídos outros três que foram recusados há alguns dias por suspeita de mistura com sementes.

Analista diz que China depende do Brasil

“O Brasil pode até deixar de vender soja para a China, mas a China não pode deixar de comprar do Brasil, pois ficará dependente da Argentina e Estados Unidos”. A afirmação é do diretor da Brasoja, Antonio Sartori, que falou ontem durante o Tá na Mesa, na Federasul. Sartori justifica que a produção mundial de soja é de 190 milhões de toneladas na safra 2003/2004 e a China consome 22 milhões de toneladas. Em relação a preços, Sartori diz que não se pode fazer qualquer previsão, já que os custos são vinculados a questões climáticas e a decisões política. “A recusa da soja é uma desculpa para baixar os preços”, diz Sartori.

CMN vota medidas para o Plano Agrícola

O Conselho Monetário Nacional (CMN) deve aprovar hoje as medidas que compõem o Plano Agrícola e Pecuário 2004/2005. O plano será divulgado amanhã, pelo presidente Lula e pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Segundo o ministério, serão analisados sete votos que definirão o montante de recursos para investimentos, custeio, comercialização da safra que começa a ser plantada em setembro.

Jornal do Comércio – 17/06/2004
http://jcrs.uol.com.br/

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