Gustavo Faleiros De São Paulo


A atividade econômica prospera fora das regiões metropolitanas brasileiras. Enquanto as taxas de desemprego continuam a bater recorde nos principais centros urbanos, a geração de novos postos de trabalho cresce no interior. Crescem também outros indicadores, como arrecadação fiscal, exportações, vendas e consumo de energia. Juntos, eles permitem vislumbrar um acelerado ritmo de produção longe das capitais.

A arrecadação do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no Estado de São Paulo ilustra bem a diferença vivida entre as capitais e o interior. De janeiro a abril, a receita arrecadada na Grande São Paulo elevou-se 4,9% sobre igual período de 2003. Excluindo-se a região metropolitana, o valor do ICMS subiu 12,8%, acima da média estadual de 8,2%.

Os dados sobre a criação de postos de trabalho formal também vêm revelando um dinamismo maior fora dos tradicionais centros urbanos. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho mostra que, nos primeiros quatro meses do ano, o emprego aumentou 1,5% nas nove regiões metropolitanas pesquisadas, enquanto o resto do país teve o dobro da variação: 3,0%. A média nacional ficou em 2,3%. Com exceção da construção civil, o percentual de geração de vagas no interior é superior ao das capitais em todos os setores da atividade econômica.

A razão para tal dicotomia está tanto nas novas qualidades do interior quanto no aprofundamento dos defeitos das regiões metropolitanas. O professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) José Eli da Veiga, um estudioso da economia interiorana, argumenta que as aglomerações nas capitais perderam seu valor de economia de escala ao passo que problemas de logística e qualificação da mão-de-obra atingiram a produtividade . “As aglomerações criam hoje um efeito contrário ao que ocorreu há 30 anos, temos uma deseconomia de escala”.

Quanto às qualidades do interior, é notório o impacto das atividades agrícolas voltadas para a exportação de commodities na renda de determinadas regiões. Veiga, entretanto, alerta para o erro de apenas considerar o agronegócio como fonte de riqueza. “Alguns fatores de dinamismo do interior estão sendo subestimados”, diz. Dentre estes fatores, o pesquisador cita pólos industriais bem organizados, como os de móveis, sapatos, têxteis, cerâmica e jóias.

Os números de consumo de energia da CPFL, distribuidora que atente importantes cidades do noroeste paulista, como Bauru, São José do Rio Preto, Piracicaba e Franca apontam na direção de que a indústria e a agricultura têm desempenhado papel fundamental no crescimento do interior.

Na comparação entre janeiro e abril deste ano com o mesmo período de 2003, a venda de energia para todas as classes de consumidores subiu 3,2%. Já a indústria e o meio rural registraram alta de 6% e 8%, respectivamente.

O diretor de planejamento da comercialização da CPFL, Marco Antônio Oliveira de Siqueira, informa que tanto o consumo das indústrias quanto o do campo são recordes históricos na companhia. Segundo ele, a partir de abril, o consumo passou a ocorrer em atividades voltadas para o mercado interno como as indústrias de alimentação e as têxteis. “O que nos preocupa agora é alguma mudança na macroeconomia”, atenta.

Crescimentos de consumo de energia também foram observados em outras distribuidoras que atuam no interior paulista. A Elektro que atende Limeira, Atibaia e Tatuí, entre outros, aumentou em 8% o seu fornecimento para propriedades rurais. Ao todo, o consumo de energia nas áreas da distribuidora cresceu 3,7% (exclui perda de clientes livres).

A Eletropaulo, por sua vez, distribuidora que atua na Grande São Paulo, registrou uma queda de 3,6%, no primeiro trimestre. No balanço, a companhia atribui a redução à perda de 18 clientes livres.

O consumo de energia em outros Estados do país é também um forte indicativo de atividade econômica aquecida. O Grupo Rede registrou, em Mato Grosso, Pará e Tocantins, aumentos expressivos na demanda. No Mato Grosso, Estado que prospera com o agronegócio, o uso de energia de janeiro a abril cresceu 22,7% no campo; a média geral foi de 9,5%. Já no Tocantins, o bom desempenho da pecuária de corte causou um salto de 34% no consumo de energia, dado bem acima da média de 10%. A história se repete no Pará, onde o consumidor rural elevou em 16,6% sua demanda por eletricidade.

Nos três Estados, o uso de energia nas residências permanece abaixo da média. Na análise de José Alberto Alves Cunha, diretor de distribuição do Grupo Rede, o quadro mostra que são as atividades exportadoras que estão liderando a demanda por energia.

Os efeitos deste crescimento da atividade sobre a renda são consideráveis e podem ser medidos por indicadores do varejo.

Um ranking das 50 cidades brasileiras onde mais se vendem veículos, feito pela Federação Nacional de Distribuição de Veículos (Fenabrave) guarda algumas surpresas. Rondonópolis, pólo agrícola no Mato Grosso, é o décimo lugar com melhores compras de caminhões em todo o país. Em Ribeirão Preto, cidade com cerca de 500 mil habitantes e grande produtora de açúcar e álcool, compram-se mais carros que em João Pessoa ou Cuiabá.

José Eli da Veiga, da FEA-USP, esclarece que a robustez da economia interiorana reflete um processo ocorrido durante a década de 90, em que investimentos na produção e na qualificação da mão-de-obra foram descentralizados. Para ilustrar a tendência, indica ele, basta olhar para os dados populacionais dos municípios rurais, ou seja, aqueles que têm economia diretamente relacionada com atividade agropecuárias. Das 4,5 mil cidades nesta situação, um mil tiveram crescimento vegetativo acima da média nacional e dois mil interromperam a queda no número de habitantes.

Veiga julga difícil prever qual será o efeito deste crescimento no interior sobre a distribuição de renda no país. Ele apenas observa que a força das economias regionais será particularmente notável no momento de crescimento nacional. “As regiões metropolitanas certamente vão amargar por muito tempo a situação de alto desemprego e o espetáculo do crescimento, que todos esperamos, será bem mais interiorizado”

Fonte
Jornal Valor Econômico – 31/05/2004
http://www.valor.com.br

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