Karla Mendes e Graziela Reis

País caminha para exportar mais derivados de leite do que importa. Avanço no exterior é puxado por produtos sofisticados

Este ano, a balança comercial de lácteos no Brasil vai dar uma reviravolta. Pela primeira vez na história, o País passará da condição de importador para exportador desses produtos. A mudança é resultado do avanço das exportações de derivados de leite com maior valor agregado, que estão ganhando importantes espaços do mercado internacional. Apenas de janeiro a maio, a venda de lácteos para o mercado externo atingiu a marca de US$ 23,8 milhões, o que representa crescimento de 106% sobre os US$ 11,6 milhões registrados em igual período de 2003, segundo a Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ao todo, foram 17,6 mil toneladas vendidas ao exterior.

Só em maio, esse aumento foi de 188,7%, passando de US$ 2,5 milhões para US$ 7,3 milhões. “A gente já está com a balança comercial praticamente zerada”, observa o assessor da CNA Marcelo Martins. Até dezembro, as estimativas mais modestas calculam que o montante atinja, US$ 80 milhões, o que vai equilibrar a balança brasileira ou ajudá-la, pois as importações de lácteos têm diminuído muito. Nos cinco primeiros meses do ano, as importações recuaram 44,3%, de US$ 54,5 milhões para US$ 30,4 milhões. “Caminhamos para um superávit anual de lácteos, algo que nunca tivemos”, diz o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Gilman Viana Rodrigues.

Mercado doméstico ruim para o setor e o câmbio favorável à exportação são os principais responsáveis pelos bons resultados das exportações, explica Rodrigues. “Temos mercado para vários produtos de maior valor agregado, de queijo a doce de leite”, diz. “Mas precisa haver qualidade e padrão tecnológico e sanitário de ponta”, reforça. Até 2003, o principal produto exportado era o leite condensado. Este ano, o produto continua importante, mas houve ampliação de leite em pó fracionado e não-fracionado. “O Brasil tem conseguido se destacar nas licitações da Organização das Nações Unidas (ONU) para o World Food Program”, lembra Marcelo Martins. As conquistas do setor são creditadas a importantes estratégias adotadas no passado. “As medidas antidumping de 2001 foram fundamentais, pois as importações de lácteos caíram substancialmente. O segundo fator é a manutenção do preço do leite em patamares altos no exterior”, justifica.

PARA TODOS
Além das multinacionais, outras empresas têm se despontado como exportadoras. A Serlac, trading constituída em 2002 e que só exporta produtos de cinco empresas: as mineiras Embaré e Itambé, Iupiza (Alagoas), CCL (São Paulo) e Confepar (Paraná). “São concorrentes aqui que se juntaram para colocar o excedente lá fora”, explica o diretor da Serlac, André Mesquita. A trading exportou 5,5 mil toneladas em 2003, faturando US$ 8 milhões. Este ano, a perspectiva é vender US$ 40 milhões, ou 25 mil toneladas. “De janeiro a maio, já embarcamos US$ 15 milhões”, diz Mesquita.

O ingresso do Brasil no mercado internacional é alternativa aos países europeus, que estão reduzindo subsídios aos produtores, o que tem elevado os preços dos produtos, avalia o diretor da Serlac. “A Europa era o grande exportador do mundo. Agora, o Brasil começa a ocupar esse espaço”, ressalta. Os principais compradores dos produtos da trading estão na África, América Central e Oriente Médio, que importam leite em pó fracionado, leite condensado e vaporado.

A maior parte das exportações da Serlac vêm da Itambé, que, até o maio, exportou US$ 7 milhões, dos quais 3 mil toneladas de leite em pó e 1 mil de leite condensado. “Isso corresponde a 4% do faturamento, mas nossa meta é que as exportações atinjam US$ 30 milhões até o fim do ano, 8% do total”, destaca Jacques Gontijo, vice-presidente da Itambé. Para isso, a empresa investiu R$ 30 milhões na ampliação da fábrica de Sete Lagoas, uma das unidades exportadoras.

Como o mercado internacional está “comprador” dos lácteos brasileiros de maior valor agregado, exportar não é privilégio de grandes marcas. A mineira Leiteria de Minas, que fica em Conceição do Pará, por exemplo, deu início à venda de queijo do tipo parmesão (hard cheese) para os Estados Unidos neste ano. “Estamos prospectando outros países e nossa meta é exportar 70% da produção”, diz o sócio e diretor comercial do laticínio, Vicente Camiloti. No mercado interno, seus principais clientes são indústrias.

Segundo Camiloti, o custo para exportar é alto, mas a valorização do produto chega a 20%. “Na soma, é compensador”, garante. É por esse motivo que o diretor da Laticínios São Vicente, de São Vicente de Minas, Paulo Gribel, iniciou recentemente os estudos para começar a exportar queijos especiais. “Estamos tendo muitas sondagens, sobretudo de norte-americanos, que compravam da Europa e agora estão achando o queijo de lá caro, por causa da valorização do euro”, diz. Ele pretende começar a vender parte da produção de camembert, brie, processado sabor cheddar, queijo para fondue e gorgonzola para o mercado externo no médio prazo. “Será fácil porque a procura por queijos brasileiros de qualidade está voraz”, conta.

Jornal Estado de Minas – 21/06/2004
http://www.uai.com.br/em.html

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