Mônica Scaramuzzo De São Paulo


Pesquisadores brasileiros da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) descobriram “por acaso” uma variedade de café arábica naturalmente descafeinada. Esses grãos estavam no banco de germoplasma do IAC há quase 30 anos.

“Uma expedição organizada pela FAO (Organização para Alimento e Agricultura das Nações Unidas), em 1965, levou vários cientistas para colher material genético na Etiópia, país de origem do café”, explicou o professor Paulo Mazzafera, do Instituto de Biologia da Unicamp, que liderou as pesquisas em parceria com uma equipe do IAC. Esse material colhido na Etiópia era usado em cruzamentos de diversidade genética do café.

Paulo Mazzarefa contou que, desde 1987, os pesquisadores brasileiros tentavam, por meio de melhoramento genético, chegar a uma variedade que tivesse um teor de cafeína menor.

Em outubro do ano passado, ao utilizar os grãos de arábica da Etiópia, batizados de AC 1, AC 2 e AC 3, que estavam armazenados no banco de germoplasma do IAC, descobriram, por meio de análise simples, que esses grãos já eram naturalmente descafeinados. “Resolvemos fazer testes mais elaborados, que comprovaram que os grãos realmente tinham teor praticamente zero de cafeína”, disse.

Segundo o IAC, esse grão arábica possui 20 vezes menos cafeína que os tipos convencionais de arábica. O café convencional tem teor de 1% a 1,2% de cafeína, enquanto as análises desse grão da Etiópia revelou 0,06% de cafeína. Os pesquisadores brasileiros encaminharam sua descoberta para a conceituada revista britânica de ciência “Nature”, que publica a descoberta em sua nova edição, a partir de hoje.

O próximo passo, segundo Mazzafera, será retirar sementes, produzir mudas e iniciar o plantio comercial. Esse processo pode demorar cinco anos. “Poderá ocorrer, nesse caso, perda de produtividade”, informou o professor. Paralelamente, os pesquisadores também farão a transferência das características da variedade AC para os grãos arábicas já altamente produtivos. Este é um processo mais demorado, podendo demorar até 15 anos para o grão ser negociado comercialmente.
Cientistas japoneses fizeram o cruzamento de grãos de café geneticamente modificado em grãos de qualidade inferior ao arábica. O Brasil detém a tecnologia do grão arábica, responsável por 80% da negociação mundial.


Jornal Valor Econômico – 23/6/2004
http://www.valor.com.br

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