Rosana de Cassia

Brasília – O presidente da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne e ex-ministro da Agricultura, Marcus Vinícius Pratini de Moraes, considera normal a reação de alguns países como a China e a Rússia, que recusaram recentemente as exportações de soja e carne brasileiras. “Eu acho que nós temos de nos acostumar que quando o Brasil cresce e assume as posições que está assumindo como agora, na posição de liderança internacional de soja e de carne vem pau por aí, como foi o caso do café solúvel, dos calçados, do aço e do suco de laranja”, disse Pratini de Moraes, em entrevista ao Bom Dia Brasil, da TV Globo.

Na avaliação de Pratini de Moraes, o Brasil está “atrapalhando a concorrência” ao tomar a posição de liderança na produção de alguns produtos. “Eu não tenho dúvida nenhuma de que as vantagens competitivas que o Brasil tem hoje na carne, tanto bovina como suína e de frango, na soja, na celulose, no aço e no couro são quase que absolutas. Ninguém pode competir com o Brasil e o País precisa assumir essa posição, explorar as suas oportunidades no mercado e aprender que sempre vai ter dificuldades reais”, disse.

Descuido
Para ele, a aftosa no Pará, apontada como causa do embargo da carne brasileira pela Rússia e a Argentina, foi um “descuido na vigilância sanitária”. “É muito importante e provavelmente a atividade mais crucial nesta fase do Brasil, de afirmação do agronegócio, a sanidade animal e vegetal. Se não quer aftosa tem de vacinar. E tem, de vacinar 100% dos animais”, defendeu o ex-ministro que atribui o problema à falta de dinheiro para a vacinação.

“Os Estados mais pobres precisam de recursos federais. Nos últimos dois anos tem havido insuficiência desses recursos”, disse Pratini de Moraes, numa discreta referência ao governo do PT. “É preciso colocar recursos, não é muita coisa, para os veterinários irem às propriedades e com isso evitar que a doença se espalhe”. Para Pratini, o governo foi rápido na resposta aos embargos mas ressaltou que “talvez” a resposta não tenha sido suficientemente efetiva.

“O que é importante neste momento é que o Brasil hoje é o maior do mundo e nós precisamos estar preparados para isso. Temos de evitar, também, misturar questão comercial com questão ideológica e política. Isso é uma questão comercial, tem de ser tratada comercialmente”, defendeu Pratini de Moraes.

“Não pode haver falha sanitária na questão da carne. Nós temos de enfrentar as nossas negociações internacionais como líderes e não como países que estão começando. Nós temos de cobrar da OMC uma atitude mais rigorosa para evitar abuso na questão sanitária e não podemos admitir que um país como a Argentina, por exemplo, bloqueie a importação de carne do Brasil porque houve um foco de um animal com aftosa numa região que não está livre de aftosa que é a Amazônia”.

Segundo Pratini, o Brasil precisa ter uma posição mais pró-ativa. “Temos que cobrar e ter mais firmeza e entender o seguinte: ninguém vai dar colher de chá para o Brasil. Nós temos de conquistar o nosso espaço com muito trabalho e fazer direito o dever de casa, conferindo aos nossos produtos qualidade e sanidade. Aí o Brasil vai continuar desenvolvendo o seu agronegócio”.


Jornal O Estado de São Paulo – 29/06/2004
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Da Redação

Governos Federal e estadual destinam recursos para fortalecimento da defesa no setor

Está prevista para o próximo dia 1ª de julho a assinatura, em Belém, de um convênio do Ministério da Agricultura, do Governo Federal, com o Governo do Estado, via Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará), e demais Estados do Norte e Nordeste do País. Orçado em R$ 3,6 milhões, o convênio visa o fortalecimento da defesa agropecuária. Segundo o diretor geral da Adepará, Luiz Pinto, parte dos recursos, R$ 2,6 milhões virão dos cofres do Governo Federal. O restante, R$ 1 milhão, será repassado pelo Governo do Estado e será destinado para a manutenção e ampliação da atenção sanitária no Pará.

Riscos – A informação foi repassada aos membros do Sindicato Rural de Santarém e aos criadores de Monte Alegre, no Baixo Amazonas, esta semana, quando representantes do governo estadual visitaram os dois municípios para tranqüilizar a região de que não há nenhum risco de proliferação da aftosa no Estado, já que a Adepara está atuando com rigor nas três zonas paraenses, fazendo vigilância, fiscalização e controle da doença. Luiz Pinto afirma que o Pará foi escolhido para sediar a assinatura do documento por ser considerado o Estado brasileiro com maior potencial de crescimento nessa área, a partir da utilização correta da área já ocupada e da abertura de novas áreas de criação, seguindo o modelo de Zoneamento Ecológico Econômico do Estado. “O Pará tem mais de 15 milhões de cabeças de gado e essa produção pode crescer em produtividade e exportação”, afirma.

Crescimento do PIB paraense supera taxa nacional

A informação confere com números divulgados em dezembro de 2003 pela Diretoria de Estudos, Pesquisas e Informações Sócio-Econômicas da Secretaria Executiva de Planejamento, Orçamento e Finanças (Sepof), em conjunto com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que o Produto Interno Bruto (PIB) do Pará cresceu 4,7% em 2001, atingindo a marca de R$ 21,7 bilhões. Este desempenho fez o Estado subir uma posição no ranking do PIB no Brasil, passando de 13º, posição alcançada em 2000, para 12º lugar em 2001. O crescimento do PIB paraense superou em muito a taxa brasileira, que foi de 1,3% para o mesmo período, e encostou-se à média da Região Norte, que registrou 4,76% de crescimento em 2001. O Estado ocupa a liderança regional, participando com 38,14% na composição do PIB do Norte.

Importância – A participação paraense na composição do PIB nacional a preço de mercado também aumentou, passando de 1,76% para 1,81% no mesmo período. Uma participação importante, quando se leva em conta que a soma dos PIBs dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, os três primeiros colocados na lista, representa mais de 55% do Produto Interno Bruto nacional. O setor agropecuário paraense contribuiu para esse crescimento com 4,33%. O PIB agropecuário do Estado atingiu, naquele ano, R$ 4,8 bilhões, com uma participação de 23,44% na composição do PIB estadual, confirmando a trajetória de crescimento iniciada em 1998.

Reconhecimento internacional de área livre depende de parceria

Os dados da Sepof, divulgados sempre com um intervalo de dois anos, em função da metodologia utilizada, que requer a coleta de informações que só estão disponíveis após o encerramento de cada ano, como os balanços de empresas, por exemplo, podem surpreender em 2005, caso o Pará consiga o reconhecimento internacional da Zona I como Zona Livre da aftosa, que já é reconhecida nacionalmente. A avaliação está sendo feita pela Organização Internacional de Epizootias (OIE), em Paris. A organização deve divulgar o resultado até o mês de outubro deste ano. O pedido envolve a região centro-sul do Estado do Pará, juntamente com o Estado do Acre e dois municípios do Estado do Amazonas, que constituem a proposta brasileira para ampliação da zona livre de febre aftosa com vacinação. O processo de reconhecimento internacional é conferido pela Organização Mundial de Saúde Animal, através da OIE. Mas, a Adepará, criada em 2002, para atuar na proteção, defesa e garantia da produção e da produtividade sustentada de alimentos no Estado, faz um alerta. “Não existe a mínima condição de alcançarmos o status de área livre para o rebanho paraense sem a efetiva parceria com o produtor”, afirmou Luiz Pinto.

Especulação é um problema ainda maior que a doença

A Zona I, que envolve 43 dos 143 municípios do Pará, abriga hoje 647 km de terras, totalizando 54.748 propriedades criadoras, com um rebanho de 10.699.783 cabeças. A cobertura vacinal nesta área é de 94,32%. Porém, nas últimas duas semanas, Rússia e Argentina suspenderam a importação de todas as carnes brasileiras após a informação de que havia um foco de aftosa no Pará. A decisão deixa o Brasil, e em especial o Pará, em uma situação delicada. O que é mais grave é que a especulação está sendo maior que o problema. No caso da Rússia, por exemplo, a decisão foi tomada por que o governo daquele país achou, a princípio, que o foco era no Paraná e não no Pará. A Argentina seguiu o exemplo da Rússia, mesmo sem a confirmação de que o foco era comprovado. Segundo o diretor geral da Agência de Defesa Agropecuária do Pará, Luiz Pinto, que passou dois dias nos municípios de Monte Alegre e Santarém, esclarecendo aos pecuaristas, imprensa e demais segmentos sobre a ação do Estado e do Ministério da Agricultura contra a aftosa, o problema todo foi gerado pela falta de informação ou pela divulgação incompleta dessa informação. “Não temos um foco de aftosa no Pará. Temos a suspeita de que, do material coletado em três animais, um único pode ter aftosa, já que apresentou os sintomas da doença”.
Fases do exame Luiz informa que a comprovação da aftosa só acontece após a realização de três fases do exame laboratorial e que apenas os resultados do primeiro exame foram divulgados, restando ainda duas fases a serem feitas com o material coletado esta semana. O resultado final só sai na próxima semana e será divulgado pelo Laboratório de Patologia Animal do Ministério da Agricultura. Ele também adiantou que o sacrifício dos 160 animais da fazenda São Francisco não está descartado e que todos os procedimentos necessários já foram tomados, como o isolamento da fazenda, a publicação da portaria 002, que proíbe o trânsito dos animais em um raio de 25 km da fazenda suspeita de abrigar o foco e do trabalho conjunto entre Adepará, Delegacia Federal de Agricultura, sindicatos, associações de criadores e demais segmentos na região. Mesmo assim está havendo o que ele chamada de teoria de informações truncadas. “Estamos sendo transparentes com o público nesta situação e agindo de acordo com o Código Sanitário. Mas, após uma reunião com o secretário Especial de Produção, Vilmos Grunvald, vamos avaliar a situação. Se for necessário, teremos que sacrificar os animais. O abatimento sanitário será em um matadouro de Santarém”, afirmou.


Folha do Amapá – D´´ario do Pará
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Da Redação

Alimentação e agricultura no centro das preocupações

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) anunciou hoje a entrada em vigor de um tratado internacional sobre os recursos genéticos das plantas, que é considerado “essencial para a agricultura”. O documento foi finalmente ratificado por 55 países, o que o torna válido.

Este tratado é “um texto juridicamente vinculativo sobre a agricultura sustentável”, que adquiriu hoje força de lei ao ser ratificado por 55 nações, e que marca o início de uma “nova era”, segundo o secretário da comissão intergovernamental sobre os recursos genéticos para a alimentação e agricultura, José Esquinas-Alcázar.

O documento abarca 35 culturas para alimentação humana e 29 culturas para pasto e forragem e agrega pela primeira vez, num texto deste tipo e à escala mundial, as comunidades locais e indígenas e os agricultores de todas as regiões do mundo num compromisso de “conservação e desenvolvimento dos recursos genéticos das plantas”, frisa a FAO.

A partir daqui, os governos devem acordar com os camponeses o direito de participar nas tomadas de decisão nacionais e de lhes outorgar uma “parte equitativa dos benefícios derivados dos recursos genéticos das plantas”, informa a agência.

Na prática, há hoje 150 espécies vegetais que alimentam toda a população mundial e o arroz, o milho, o trigo e as batatas representam 60 por cento dessa produção. Fora do tratado estão os EUA, a Argentina e o Brasil, que estão entre os maiores produtores agrícolas à escala mundial.


Jornal Última Hora – 29/06/2004
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Kelly Oliveira – Agência Brasil

A 5ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) decidiu ontem liberar o plantio e a comercialização da soja transgênica Roundup Ready. Pela decisão, as empresas Monsanto, Monsoy e a União não precisam apresentar um estudo de impacto ambiental ao Ibama e ficam valendo as licenças concedidas pela Comissão Técnica Nacional de Biosegurança (CTNBio). Mas, na prática, a liberação só será possível depois do julgamento em última instância.
O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IBDC), órgão que entrou com a ação, ainda pode recorrer ao TRF, ao Supremo Tribunal Federal e ao Superior Tribunal de Justiça. A Monsanto vai recorrer para obter a permissão de plantio e comercialização para todas as safras. Uma medida provisória do Governo Federal já havia liberado o plantio com sementes transgênicas existentes e a comercialização de soja já colhida até 2005.


Folha do Amapá – Agência Brasil – 29/06/2004
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João Caminoto

Londres – O presidente da associação irlandesa de criadores de gado (ICSA, na sigla em inglês), Robin Smith, solicitou ao comissário europeu responsável pela saúde e proteção ao consumidor, David Byrne, um banimento temporário às importações de carne bovina do Brasil dentro do bloco europeu. Segundo o jornal irlandês Irish Independent, o pedido é uma resposta ao surgimento na semana passada de um caso de febre aftosa no Brasil, os primeiro caso no país em quase três anos.

O diário observa que a Argentina e Russia proibiram as importações da carne brasileira nos últimos dias por causa da doença. Segundo Smith, o departamento de Alimentação e Veterinária da União Européia já havia declarado que o sistema para monitorar o movimento de animais no Brasil não pode ser considerado completamente confiável.

Jornal O Estado de São Paulo – 29/06/2004
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De Luís Eduardo Magalhães

As oportunidades de investimento no cerrado brasileiro atordoam a imaginação. Um mundo de oportunidades. Com alguns desses dizeres (e uma enormidade de fotos) a empresa norte-americana AgBrazil apresenta em sua página na internet os serviços que oferece a agricultores e investidores dos EUA: tours para o Oeste da Bahia, assessoria técnica e jurídica para análise e compra de propriedades e a imigração para o país.

A empresa com sede no Missouri, dirigida por um norte-americano que morou no Brasil, Philip F. Warnken, promove esse tipo de turismo que começa a se tornar comum na região de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, as duas principais cidades do Oeste baiano. Segundo o Sindicato Rural de Luís Eduardo Magalhães, cinco americanos mantêm propriedades no município.

Clay Earl, americano do Kansas que chegou à área onde se localiza Luís Eduardo em 1973, explica o porquê do interesse dos fazendeiros do Norte: enquanto nos EUA o hectare de terra custa entre US$ 6 mil e US$ 8 mil, no cerrado baiano terras de boa qualidade podem ser encontradas por cerca de US$ 2 mil. “Normalmente, vêm os agricultores mais velhos, já estabelecidos. Procuram terras para os filhos. Não há mais grandes áreas disponíveis de boa qualidade nos EUA e as que existem são caras”, diz Earl, proprietário de uma fazenda de 4.500 hectares.

O fazendeiro, que planta algodão e soja, atua como “guia” para os grupos de estrangeiros que visitam a região. No ano passado, ele recebeu cerca de 60 pessoas. Este ano, foram cem visitantes até o último mês. Os investidores/agricultores pagam US$ 1.700 (a partir de Brasília) pela estadia de uma semana no Oeste baiano, que inclui visitas a fazendas produtoras de café, soja, algodão e frutas. “Eles têm muitas dúvidas sobre as condições de infra-estrutura, escoamento de produção, valor e qualidade das terras. Indagam sobre segurança. Mas depois de uma semana aqui, vêem que essa não é uma questão relevante”, diz Earl, casado com uma baiana, pai de três filhos e dono de um marcado sotaque baiano.

Segundo Earl, a implantação de uma propriedade agrícola de tamanho médio (entre mil e 2 mil) em áreas de melhor qualidade ( de maior intensidade de chuvas) exige investimento da ordem de R$ 500 mil. (J.A.D.)


Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
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José Alan Dias, para o Valor De Barreiras


Produção do “ouro branco” cresce 147% entre 2003 e 2004

Considerada o “ouro verde”, a soja encontrou no cerrado baiano um rival com assombroso potencial econômico: o “ouro branco”, como o algodão é chamado no Oeste da Bahia. Em um ano, a produção de algodão na região mais que dobrou -é o cultivo que mais cresce no Estado. Saltou de 240 mil toneladas, em 2003, para 595 mil toneladas (previstos para este ano), alta de 147%.

As demais culturas de grãos registraram índices de crescimento significativos, mas incomparáveis ao do algodão: a produção de milho teve expansão de 48,9%. A de soja cresceu 42,5%; a de sorgo, 38,39%, e a de feijão, 33,3%, de acordo com Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais.

De todo o algodão colhido na Bahia, mais de 85% têm origem no cerrado baiano. Em 1997, não se produzia mais que 10 mil toneladas de algodão na região. Caso a estimativa deste ano se confirme, significa que, em sete anos, terá ocorrido um aumento de mais de 6.400% na produção.

Os resultados da última safra permitiram à Bahia chegar ao segundo lugar na produção nacional, ranking liderado pelo Mato Grosso. A partir de 2005, o algodão deve superar a soja na participação do PIB agrícola da Bahia, prevê João Carlos Jacobsen, vice-presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), ele próprio um migrante, de Clevelândia (PR), que planta algodão no Oeste baiano.

Na estimativa da Abrapa, os 162 mil hectares de algodão na safra 2004 devem resultar em receita de R$ 900 milhões. A soja, em quatro vezes mais de área plantada (820 mil hectares), propiciará receita de R$ 1,4 bilhão.

Os produtores, de algodão e soja, são categóricos: a soja continuará como a principal atividade agrícola da região, em área cultivada _hoje, tem 60% do total contra 12% do algodão. A área ocupada pelo algodão deve ter expansão maior nos próximos anos, o que, somado à rentabilidade do produto, propiciaria, a inversão de posto no faturamento agrícola. “Na safra 2004/2005, o cultivo de algodão deve subir para para 250 mil hectares. Até o final desta década, do estimado 1,8 milhão de hectares plantados no Oeste, 500 mil serão de algodão, ou seja, quase um terço”, diz Eduardo Yamashita, secretário de Agricultura de Luís Eduardo Magalhães.

“A região tem vocação para o plantio de soja. Ela sempre ocupará a maior área. Precisamos considerar que a soja é uma cultura de entrada (de iniciação de produção) e demanda menor investimento”, completa Jacobsen.

Os cálculos da Abrapa são os seguintes: o algodão exige um investimento de US$ 1.400 por hectare plantado, enquanto para a soja esse valor não supera US$ 400. Mas a margem de lucro da cotonicultura é de três a quatro vezes maior. Segundo a associação, a rentabilidade líquida do algodão alcança, pelos atuais preços mundiais, US$ 500 por hectare. Na soja, a rentabilidade varia de US$ 100 a US$ 200.

Há outra razão para o interesse pelo “ouro branco” do Oeste baiano. O algodão do cerrado da Bahia é considerado de melhor qualidade que o de Mato Grosso. “O clima e o tipo de solo permitem que se produza um algodão com fibra mais resistente e longa, o que aumenta seu preço no mercado”, diz Harald Brunckhorst, diretor da agropecuária Maeda, que investiu US$ 2 milhões em uma usina de beneficiamento em Luís Eduardo Magalhães.

“O desenvolvimento do algodão de ótima qualidade ratifica o potencial do Oeste baiano”, diz Humberto Santa Cruz Filho, da Aiba (Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia).

Não por acaso, na região Oeste estão instaladas as principais beneficiadoras do Estado. Do total produzido pela Maeda, por exemplo, 70% é exportado.

O grupo português Mota, de fiação e tecelagem, investirá US$ 30 milhões em áreas de cultivo e em uma beneficiadora em Luís Eduardo. “O algodão da Bahia é um dos melhores do mundo. Instalados aqui deteremos boa parte do processo produtivo”, diz Manuel Mota, diretor do grupo.

Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
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Por José Alan Dias De Salvador

Região colhe os frutos de uma sofisticada e diversificada evolução na produção agrícola nos três últimos anos

Quando chegou ao Oeste da Bahia, em 1973, a primeira providência da família do norte-americano Clay Earl, à época um adolescente, foi procurar os órgãos do governo para descobrir a quem pertenciam as terras naquele imenso cerrado, cuja única referência era a estrada que ligava o município de Barreiras (853 km de Salvador) a Brasília. De um funcionário público, Clay, o pai e o irmão ouviram que, se eram tão loucos a ponto de quererem comprar terras devolutas do Estado naquela região, poderiam ficar com elas de graça. Bastaria delimitar a área.

Os Earls não escolheram aquele lugar por acaso. O patriarca, que visitara várias regiões brasileiras em busca de terra barata e com potencial produtivo para comprar, se entusiasmara com a topografia plana e a abundância de nascentes de rios.

A expansão dessa “terra de ninguém” começaria, de fato, na virada dos anos 70, quando chegaram os primeiros migrantes da região Sul, em sua maioria gaúchos. Esses descendentes de alemães, italianos, poloneses e húngaros vendiam pequenas propriedades de 20 a 30 hectares para comprar áreas de 10 mil hectares no Oeste baiano.

Passadas quase três décadas, a Bahia, de certa forma, experimenta uma volta ao passado. Desde os anos 90, por meio de uma política agressiva de incentivos, o governo estimula investimentos no setor industrial, estratégia que resultou na instalação de um parque automotivo liderado pela Ford, com investimento de US$ 1,9 bilhão, em 2001, e mais recentemente no anúncio da Continental, fabricante alemã de pneus, de que aplicará US$ 260 milhões na construção de uma unidade, em Camaçari, além do desembarque de fábricas de calçados e informática e novos investimentos na petroquímica e celulose. Além disso, a Bahia consolida-se como um dos mais importantes centros turísticos do país: em 2003, com 4,7 milhões de turistas recebidos, praticamente empatou com São Paulo no segundo posto – perde apenas para o Rio.

A Bahia ostenta ainda uma assombrosa evolução em sua produção agrícola – notadamente nos três últimos anos. É uma volta ao passado que não mais depende de uma única cultura, como fora o cacau até a década de 50, mas com uma produção diversificada e sofisticada. E que tem o Oeste como centro. A região, que ocupa 28,5% do território baiano e abriga 39 municípios, será responsável por 62% da soja, quase 90% do algodão, 27% do milho e 6% das frutas produzidas no Nordeste na safra 2004.

O Oeste baiano tem hoje 1,36 milhão de hectares cultivados. Pelas estimativas da Aiba (Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia), o potencial de expansão de áreas agricultáveis chega a mais 3 milhões de hectares.

Entre o início da década de 90 e o ano passado, a área cultivada no Oeste da Bahia cresceu 191%. Do total de área plantada na safra 2003/2004, 60% foi ocupado pela soja, 13% pelo milho, 12% pelo algodão, 2% por arroz, 1% por café, outro 1% por frutas e o restante dividido entre culturas que incluem sorgo, capim e milho de pipoca. “Uma das razões para os excelentes resultados da região é essa diversificação produtiva”, diz Humberto Santa Cruz Filho, presidente da Aiba.

A produção total de grãos na região passou de 792 mil toneladas (em 1992) para os 4,115 milhões previstos pelo governo para a região neste ano. No total, a Bahia deve colher 5,37 milhões de toneladas de grãos em 2004.

Com 2,216 milhões de toneladas na atual safra (aumento de 42,5% em relação a 2003), o Oeste concentra toda a produção de soja do Estado e 4% do total do país. A Bahia é hoje o sétimo maior produtor nacional.

Nada comparável ao excelente resultado obtido pelo algodão. A produção aumentou de 240 mil toneladas, em 2003, para 595 mil toneladas (previstas para este ano), aumento de 147%. A Bahia ocupa desde o ano passado o segundo lugar na produção nacional, atrás do Mato Grosso. O “ouro branco” deve, a partir do próximo ano, superar a soja na participação do PIB agrícola da Bahia, prevê João Carlos Jacobsen, da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão.

Não bastasse, o cerrado da Bahia vê o aumento, ano a ano, da área cultivada de café. São 13.400 hectares, que equivalem a 12% da área cultivada de café no Estado. Com a expectativa de colheita de 670 mil sacas, o Oeste responderá por um quarto da produção baiana (de 2,4 milhões de sacas).
O aumento da área irrigada permitiu que fosse implantado um novo pólo de fruticultura, a exemplo do existente nos arredores de Juazeiro e Petrolina (PE). A região exporta frutas para Inglaterra, França, Portugal e Holanda.

A revolução no Oeste baiano é perceptível em mais indicadores. A cidade de Luís Eduardo Magalhães, antigo distrito de Barreiras, da qual está distante 94 quilômetros, viu sua população dobrar entre 2000 (data do último Censo do IBGE) e este ano (de 20 mil para cerca de 44 mil pessoas).

O espetacular desempenho agrícola atraiu gigantes estrangeiras, como a Bunge, que mantém em Luís Eduardo sua maior unidade de processamento de soja no Brasil e uma fábrica de fertilizantes. Outro gigante, a norte-americana Cargill, processa soja em Barreiras. A Galvani instalou uma fábrica de fertilizantes em Luís Eduardo. A fabricante de tratores John Deere mantém na cidade sua maior revenda na América Latina – e tem ainda uma revenda em Barreiras.

A Bahia não olha apenas para a nova fronteira. A expansão agrícola em outras áreas permitiu que as pequenas Mucugê e Ibicora, na Chapada Diamantina, se tornassem plenas em emprego.

No ano passado, enquanto a economia brasileira, como um todo, ficou estagnada (o PIB teve variação negativa de 0,2%), o PIB da Bahia cresceu 3%. O Estado consolidou sua participação de 6% no PIB total brasileiro. Entre este ano e 2008, estão programados investimentos de R$ 21,631 bilhões no Estado, apenas no setor industrial.

A balança comercial da Bahia registrou no ano o maior saldo comercial de sua história – saltou de R$ 532 milhões em 2003 para o R$ 1,334 bilhão em 2004.

No setor de turismo, estão confirmados investimento de US$ 250 milhões do espanhol Iberostar na construção de um resort com 1.400 apartamentos na praia do Forte. A praia de Itacaré, no sul do Estado, abrigará o primeiro hotel seis estrelas do país, a ser construído também por um grupo português.

“O grande desafio da Bahia agora é melhorar seu IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)”, diz o secretário estadual do Planejamento, Armando Avena. No ranking que abrange de 1991 a 2000, a Bahia estava em 22º lugar entre os Estados brasileiros.


Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
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Taciana Collet De São Paulo


Na presença de representantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e dos Trabalhadores em Agricultura (Contag), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ontem oficialmente o Plano Safra para Agricultura Familiar 2004-2005 com R$ 7 bilhões em crédito rural. Os recursos são 30% maiores do que os oferecidos no período anterior. Ao discursar, Lula observou que não faltará dinheiro para a agricultura familiar e que, se houver projetos, o valor disponível pode chegar a R$ 8 bilhões. ” Vamos trabalhar com essa certeza, porque sempre é possível a gente arrumar um pouco mais. ”

No ano passado, foram anunciados R$ 5,4 bilhões, mas R$ 900 milhões não foram liberados. ” Só para se ter uma idéia da gravidade, nos anos anteriores, apenas 57% do dinheiro que era anunciado chegava na mão dos trabalhadores. Neste ano, nós superamos 85%, ou seja, precisamos chegar à perfeição e chegar aos 100% ” , lembrou. ” Para isso, temos que conversar com os bancos privados para que eles coloquem o dinheiro à disposição. ” Dos R$ 7 bilhões anunciados, R$ 2 bilhões ficarão nas instituições privadas.

” É preciso que as pessoas compreendam que um cidadão que vai ao banco pegar R$ 2.500 tem que ter o mesmo respeito de um cidadão que vai pegar R$ 3 milhões. Ele é cliente do banco e está se beneficiando de uma política elaborada pelo governo e, portanto, essa pessoa tem de ser bem tratada ” , ressaltou o presidente. ” Eu tenho tido depoimentos de pessoas que dizem que estão sendo tratadas como gente agora. Mas pode ter uma ou outra região ainda com debilidade e, se isso ocorrer, vocês precisam nos comunicar porque, de Brasília, a gente não é obrigado a saber o que acontece em cada agência espalhada pelo Brasil. ”

Os recursos do Plano Safra atenderão cerca de 1,8 milhão de famílias de todas as regiões do país (400 mil a mais), com linhas de crédito específica jovens e mulheres que moram no campo. A agricultura familiar responde por 40% de tudo o que produzido na zona rural do Brasil e gera sete de cada dez postos de trabalho no campo segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Os números mostram que os produtores familiares respondem por 31% do arroz, 67% do feijão, 58% dos suínos e 52% do leite, 84% da mandioca. Também foram responsáveis por 1/3 das 50 milhões toneladas de soja da última safra.

“Muitas vezes se vende a idéia de que o trabalhador na agricultura familiar é sempre um coitadinho, mas é preciso observar o que faz a agricultura familiar. É necessário que a gente dê a devida importância a esse segmento da sociedade”.

Ao discursar na cerimônia, o coordenador nacional do MST, João Paulo Rodrigues, elogiou o governo Lula e disse que o movimento quer ajudar o presidente a fazer a maior reforma agrária do país. Mas disse que a liberação dos transgênicos “inviabiliza” programa de soberania alimentar. O presidente da Contag, Manoel José dos Santos, também discursou e cobrou a liberação dos recursos do programa “Compra Antecipada” que estão contingenciados. ” O dinheiro do Plano Safra ainda não é tudo, nossa pauta é superior, mas quando a gente pedir e o governo atender 100% é porque não sabemos pedir ” , afirmou o presidente da Contag.

Lula rebateu: “Às vezes vocês reivindicam coisas que são impossíveis de o governo cumprir, e, com a mesma lealdade que nós temos nos tratado nesses últimos 30 anos, eu vou dizer para você: não posso.”


Jornal Valor Econômico – 29/6/2004
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Depois de produzir três clones, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa – está desenvolvendo a primeira vaca transgênica do país. As pesquisas começaram há oito meses e estão na fase de produção de embriões. O animal terá uma característica inserida em seu código genético que permitirá a produção de fatores de coagulação sanguínea, utilizados pela indústria de hemoderivados. Esses fatores poderão ser extraídos do leite da vaca transgênica, barateando o custo dos remédios fabricados a partir do sangue.

Além dos fatores de coagulação, os técnicos da Embrapa também estão tentando incluir nos embriões de bovinos material genético do hormônio do crescimento. “É muito mais fácil extrair esses materiais do leite”, explicou o chefe Geral de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa, José Manuel Cabral Dias. Os clones transgênicos vêm sendo pesquisados pelos principais centros de biotecnologia do mundo, que buscam produzir os chamados animais “biorreatores”, capazes de produzir substâncias que possam ser utilizadas como matéria-prima para a indústria farmacêutica.

Dias estima que o nascimento da primeira bezerra transgênica só ocorrerá daqui a três anos. A indústria farmacêutica deve levar mais cinco anos para desenvolver os medicamentos.

Mas nem só de conquistas caminha a ciência. No dia 30 de maio, a Embrapa sofreu um revés que só foi anunciado ontem. Morreu a bezerra “Vitoriosa”, primeiro animal na América Latina clonado de outro clone, no caso, a vaca “Vitória”. A bezerra tinha quatro meses e meio e sofreu um “choque cardiogênico” causado por hipertensão arterial. Os responsáveis pela pesquisa ainda não sabem se a morte está relacionada ao fato do animal ser clone de outro clone. A bezerra foi criada a partir de um tecido da orelha de “Vitória”, primeiro clone bovino do continente que nasceu em 2001 e que até hoje apresenta desenvolvimento normal.

A morte de “Vitoriosa” surpreendeu os pesquisadores. “Estávamos bastante otimistas com a Vitoriosa, que estava ganhando peso como qualquer bezerro da sua raça [Simental]”, disse o líder das pesquisas de reprodução animal da Embrapa, Rodolfo Rumpf.

A Embrapa criou ainda um terceiro clone, a bezerra “Lenda”, de nove meses, produzida a partir de células do ovário de uma vaca já morta. “Lenda” também apresenta um desenvolvimento normal. O órgão tem demanda para clonar cabras, ovelhas e eqüinos, mas não tem previsão de quando estes experimentos serão iniciados.


Jornal Valor Econômico – 29/6/2004
http://www.valor.com.br

Vinicius Doria De Brasília

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