Taciana Collet De São Paulo


Na presença de representantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) e dos Trabalhadores em Agricultura (Contag), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou ontem oficialmente o Plano Safra para Agricultura Familiar 2004-2005 com R$ 7 bilhões em crédito rural. Os recursos são 30% maiores do que os oferecidos no período anterior. Ao discursar, Lula observou que não faltará dinheiro para a agricultura familiar e que, se houver projetos, o valor disponível pode chegar a R$ 8 bilhões. ” Vamos trabalhar com essa certeza, porque sempre é possível a gente arrumar um pouco mais. ”

No ano passado, foram anunciados R$ 5,4 bilhões, mas R$ 900 milhões não foram liberados. ” Só para se ter uma idéia da gravidade, nos anos anteriores, apenas 57% do dinheiro que era anunciado chegava na mão dos trabalhadores. Neste ano, nós superamos 85%, ou seja, precisamos chegar à perfeição e chegar aos 100% ” , lembrou. ” Para isso, temos que conversar com os bancos privados para que eles coloquem o dinheiro à disposição. ” Dos R$ 7 bilhões anunciados, R$ 2 bilhões ficarão nas instituições privadas.

” É preciso que as pessoas compreendam que um cidadão que vai ao banco pegar R$ 2.500 tem que ter o mesmo respeito de um cidadão que vai pegar R$ 3 milhões. Ele é cliente do banco e está se beneficiando de uma política elaborada pelo governo e, portanto, essa pessoa tem de ser bem tratada ” , ressaltou o presidente. ” Eu tenho tido depoimentos de pessoas que dizem que estão sendo tratadas como gente agora. Mas pode ter uma ou outra região ainda com debilidade e, se isso ocorrer, vocês precisam nos comunicar porque, de Brasília, a gente não é obrigado a saber o que acontece em cada agência espalhada pelo Brasil. ”

Os recursos do Plano Safra atenderão cerca de 1,8 milhão de famílias de todas as regiões do país (400 mil a mais), com linhas de crédito específica jovens e mulheres que moram no campo. A agricultura familiar responde por 40% de tudo o que produzido na zona rural do Brasil e gera sete de cada dez postos de trabalho no campo segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Os números mostram que os produtores familiares respondem por 31% do arroz, 67% do feijão, 58% dos suínos e 52% do leite, 84% da mandioca. Também foram responsáveis por 1/3 das 50 milhões toneladas de soja da última safra.

“Muitas vezes se vende a idéia de que o trabalhador na agricultura familiar é sempre um coitadinho, mas é preciso observar o que faz a agricultura familiar. É necessário que a gente dê a devida importância a esse segmento da sociedade”.

Ao discursar na cerimônia, o coordenador nacional do MST, João Paulo Rodrigues, elogiou o governo Lula e disse que o movimento quer ajudar o presidente a fazer a maior reforma agrária do país. Mas disse que a liberação dos transgênicos “inviabiliza” programa de soberania alimentar. O presidente da Contag, Manoel José dos Santos, também discursou e cobrou a liberação dos recursos do programa “Compra Antecipada” que estão contingenciados. ” O dinheiro do Plano Safra ainda não é tudo, nossa pauta é superior, mas quando a gente pedir e o governo atender 100% é porque não sabemos pedir ” , afirmou o presidente da Contag.

Lula rebateu: “Às vezes vocês reivindicam coisas que são impossíveis de o governo cumprir, e, com a mesma lealdade que nós temos nos tratado nesses últimos 30 anos, eu vou dizer para você: não posso.”


Jornal Valor Econômico – 29/6/2004
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