José Alan Dias, para o Valor De Barreiras


Produção do “ouro branco” cresce 147% entre 2003 e 2004

Considerada o “ouro verde”, a soja encontrou no cerrado baiano um rival com assombroso potencial econômico: o “ouro branco”, como o algodão é chamado no Oeste da Bahia. Em um ano, a produção de algodão na região mais que dobrou -é o cultivo que mais cresce no Estado. Saltou de 240 mil toneladas, em 2003, para 595 mil toneladas (previstos para este ano), alta de 147%.

As demais culturas de grãos registraram índices de crescimento significativos, mas incomparáveis ao do algodão: a produção de milho teve expansão de 48,9%. A de soja cresceu 42,5%; a de sorgo, 38,39%, e a de feijão, 33,3%, de acordo com Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais.

De todo o algodão colhido na Bahia, mais de 85% têm origem no cerrado baiano. Em 1997, não se produzia mais que 10 mil toneladas de algodão na região. Caso a estimativa deste ano se confirme, significa que, em sete anos, terá ocorrido um aumento de mais de 6.400% na produção.

Os resultados da última safra permitiram à Bahia chegar ao segundo lugar na produção nacional, ranking liderado pelo Mato Grosso. A partir de 2005, o algodão deve superar a soja na participação do PIB agrícola da Bahia, prevê João Carlos Jacobsen, vice-presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), ele próprio um migrante, de Clevelândia (PR), que planta algodão no Oeste baiano.

Na estimativa da Abrapa, os 162 mil hectares de algodão na safra 2004 devem resultar em receita de R$ 900 milhões. A soja, em quatro vezes mais de área plantada (820 mil hectares), propiciará receita de R$ 1,4 bilhão.

Os produtores, de algodão e soja, são categóricos: a soja continuará como a principal atividade agrícola da região, em área cultivada _hoje, tem 60% do total contra 12% do algodão. A área ocupada pelo algodão deve ter expansão maior nos próximos anos, o que, somado à rentabilidade do produto, propiciaria, a inversão de posto no faturamento agrícola. “Na safra 2004/2005, o cultivo de algodão deve subir para para 250 mil hectares. Até o final desta década, do estimado 1,8 milhão de hectares plantados no Oeste, 500 mil serão de algodão, ou seja, quase um terço”, diz Eduardo Yamashita, secretário de Agricultura de Luís Eduardo Magalhães.

“A região tem vocação para o plantio de soja. Ela sempre ocupará a maior área. Precisamos considerar que a soja é uma cultura de entrada (de iniciação de produção) e demanda menor investimento”, completa Jacobsen.

Os cálculos da Abrapa são os seguintes: o algodão exige um investimento de US$ 1.400 por hectare plantado, enquanto para a soja esse valor não supera US$ 400. Mas a margem de lucro da cotonicultura é de três a quatro vezes maior. Segundo a associação, a rentabilidade líquida do algodão alcança, pelos atuais preços mundiais, US$ 500 por hectare. Na soja, a rentabilidade varia de US$ 100 a US$ 200.

Há outra razão para o interesse pelo “ouro branco” do Oeste baiano. O algodão do cerrado da Bahia é considerado de melhor qualidade que o de Mato Grosso. “O clima e o tipo de solo permitem que se produza um algodão com fibra mais resistente e longa, o que aumenta seu preço no mercado”, diz Harald Brunckhorst, diretor da agropecuária Maeda, que investiu US$ 2 milhões em uma usina de beneficiamento em Luís Eduardo Magalhães.

“O desenvolvimento do algodão de ótima qualidade ratifica o potencial do Oeste baiano”, diz Humberto Santa Cruz Filho, da Aiba (Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia).

Não por acaso, na região Oeste estão instaladas as principais beneficiadoras do Estado. Do total produzido pela Maeda, por exemplo, 70% é exportado.

O grupo português Mota, de fiação e tecelagem, investirá US$ 30 milhões em áreas de cultivo e em uma beneficiadora em Luís Eduardo. “O algodão da Bahia é um dos melhores do mundo. Instalados aqui deteremos boa parte do processo produtivo”, diz Manuel Mota, diretor do grupo.

Jornal Valor Econômico – 28/6/2004
http://www.valor.com.br

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