Tatiana Bautzer De Washington


Fazendeiros do Meio-Oeste americano continuam comprando terras no Brasil para produzir soja, milho ou algodão para exportação. O crescente ganho de competitividade do agronegócio brasileiro acelerou esse processo, e as diversas visitas de associações agrícolas dos EUA realizadas nos últimos anos começam a render frutos e fortalecer a “migração”, com investimentos concentrados em regiões produtoras dos Estados de Tocantins, Mato Grosso e Bahia.

O movimento de compra de terras ganhou força depois da desvalorização cambial de 2002, estimulado pelo lançamento de cotas de investimento por alguns fazendeiros americanos entre conhecidos e sócios de cooperativas no Meio-Oeste, tradicional área de produção agrícola nos EUA. A diferença entre o preço da terra agricultável nos EUA e no Brasil, além do custo do trabalho, são os principais chamarizes para os investidores. Um acre (0,4 hectare) na região norte de Illinois, um dos Estados americanos produtores de soja, custa cerca de US$ 5 mil (R$ 15 mil), enquanto na região de fronteira do Tocantins pode sair por US$ 200.

Exemplo típico do interesse americano pelo Brasil é o do fazendeiro Phil Corzine, que até 1998 cuidava de uma pequena propriedade de sua família, de 340 acres, em Assumption, Illinois, cultivando milho e soja. Graduado pela Universidade de Illinois, Corzine dividia a administração da terra com o trabalho em órgãos de financiamento à produção agrícola e a representação na diretoria de associações de produtores de soja do estado. Depois de uma viagem organizada por uma associação de produtores de soja dos EUA à América do Sul, em 1998, Corzine começou a pensar em investir no Brasil, desde que ele não tivesse que se mudar dos Estados Unidos.

Dono de uma empresa de consultoria, Corzine decidiu reunir recursos para comprar uma fazenda de grande porte para cultivo de soja no Brasil em uma segunda viagem ao país, em fevereiro do ano passado. Durante a viagem, Corzine encontrou-se com o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi – ele próprio o maior produtor individual de soja do mundo -, e também ficou impressionado com as fazendas de soja de Goiás. Surpreendeu-se ao ter sido bem acolhido e visto não apenas como um competidor pelos fazendeiros brasileiros. Conheceu a advogada Neige Caiapó, hoje diretora de sua empresa agropecuária no Brasil, e quando voltou para os EUA abriu uma empresa para captar US$ 2 milhões e comprar uma grande área para cultivo de soja.

Para abrir a companhia, em agosto de 2003, Corzine associou-se a dois amigos americanos da mesma região, Brad Glenn e Kent Sorrels. Como diretora da empresa no Brasil, Neige recebeu uma cota de 2% do capital e os restantes 98% ficaram com os três americanos.

A South American Soy LLC teve autorização da Securities and Exchange Comission (SEC) para captar recursos junto a investidores, em cotas de US$ 10 mil cada, que dão direito a participação na subsidiária brasileira, a Nova Fronteira Agropecuária, com sede em Uberaba, Minas Gerais.

A primeira experiência foi o arrendamento, por três anos, de uma pequena faixa de terra de 21 hectares no sul do Estado de Tocantins, para pesquisa. A safra inaugural de soja, plantada em novembro, foi colhida em abril deste ano. No último mês de maio, já com quase US$ 700 milhões captados, Corzine comprou no Brasil a fazenda Campo Grande, de 210 alqueires (4,81 hectares por alqueire) no município de Araguaçu, na região do Rio Formoso, em Tocantins. A fazenda fica a 9 quilômetros de Alvorada, onde há uma unidade da multinacional Bunge que comprará a colheita. Por enquanto a fazenda tem apenas dois funcionários, sendo um deles Sílvio Caiapó, irmão de Neige, que será o administrador da fazenda.

Em novembro próximo, deverão ser plantados entre 20 e 30 alqueires de soja em uma área que hoje está ocupado pela criação de gado. A idéia é aumentar a área plantada ano após ano, até atingir os 65% da área total permitidos pela legislação ambiental na região. Corzine diz que o que mais atrai os investidores é o baixo preço da terra e do custo do trabalho. “Essa é a principal vantagem econômica”, diz. Mas não é só, observa. Há outros fatores que favorecem o crescimento da competitividade da soja brasileira em relação à americana.

Um deles é o regime de chuvas, bem mais regular do que na região de Illinois onde ele tem sua propriedade. “Nós temos normalmente um período de seca que nem sempre é possível prever com exatidão e que influencia muito a produção”, afirma. O custo do maquinário produzido no Brasil também é mais baixo do que nos Estados Unidos. “A longo prazo, a agricultura crescerá muito no Brasil e criará riqueza. Queremos que nossos fazendeiros participem um pouco desse crescimento. Além disso, comprando terras na fronteira há um potencial de alta de preços imobiliários que pode elevar nosso retorno ” , explica Corzine.

Os dividendos só começam a ser pagos depois de sete anos, e Corzine prevê uma taxa de retorno em dez anos de 22% a 23% do capital, em dólar. Espera-se que a empresa pague entre 40% e 50% dos lucros como dividendos aos acionistas nos EUA. Até o fim do ano a companhia deve atingir a meta de US$ 1,5 milhão a US$ 2 milhões e usar o dinheiro para a compra de mais terras, maquinários e sementes para ampliar a produção em terras brasileiras.

Corzine diz que escolheu o sul de Tocantins, entre o Mato Grosso e Goiás, por causa dos preços mais baixos da terra e da possibilidade de escoamento da produção por via fluvial. E afirma que, ao abrir uma empresa na área de fronteira brasileira, está “repetindo um pouco da história” de sua família, que desbravou uma área do Meio-Oeste americano há algumas gerações. No curto prazo o fazendeiro não pretende mudar-se para o Brasil, porque sua mulher, Carolyn, tem “um bom emprego” nos Estados Unidos e a adaptação de suas duas filhas, Michelle e Andrea, seria difícil. Mas Corzine pretende visitar o empreendimento brasileiro de três a quatro vezes por ano.

Na mesma direção está Adam Howell, 29 anos, que também está captando recursos para a compra de uma fazenda na região de cerrado do oeste da Bahia. Seu objetivo é captar cerca de US$ 4 milhões, tanto de fazendeiros do Estado de Indiana, onde mora sua família, como de ex-colegas de universidade – Howell é formado em economia pela Universidade de Princeton, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos e do mundo. Por enquanto, Howell tem 500 acres comprados com recursos próprios no oeste da Bahia, onde cultiva experimentalmente soja, algodão e milho, e emprega apenas uma pessoa. Como tem maquinário, fez um acordo com uma fazenda vizinha para emprestar as máquinas e receber em troca a ajuda de alguns de seus empregados.

Howell já morou no Brasil durante a produção da primeira safra , na temporada 2002/03, e quer radicar-se definitivamente no país quando completar a captação de recursos para a compra da fazenda. Sua ligação com a agricultura também está no sangue. Em Indiana, a família do economista arrenda cerca de 4,5 mil hectares para o cultivo de soja, melancia e tomates.

Ele concorda que a diferença nos preços da terra e do trabalho é um dos principais motivadores de seu investimento no Brasil. Na região escolhida, oeste da Bahia, os preços não são tão baixos quanto em área de fronteira, porque a região já tem produção comprovada e está próxima de centros consumidores no Nordeste. Mesmo assim, o acre de terra custa cerca de um terço dos US$ 2,5 mil a US$ 3 mil praticados no Estado de Indiana.

O fazendeiro conheceu o Brasil também em 1998, e resolveu passar alguns meses no país com um amigo americano, aprendendo português e fazendo contatos para o trabalho no Brasil. Nesse período arrendou um pequeno lote de terra para começar o cultivo de maneira experimental. Depois comprou um lote de 500 hectares, cuja produção começou este ano. Até agora produziu milho e algodão, mas sua intenção é adquirir uma fazenda grande para a produção de soja.

Quando concluir a captação de recursos junto a ex-colegas de faculdade e fazendeiros interessados em sua região, Howell pretende comprar uma fazenda de grande porte no oeste da Bahia. “Os primeiros a perceber o potencial da agricultura brasileira são os americanos que trabalham na área. Os preços de terra nos Estados Unidos estão disparando por fatores que não estão ligados à produção, como subsídios, razões fiscais ou a pressão de desenvolvimento de cidades”, diz Howell, que acredita que a competitividade da agricultura brasileira vai “chacoalhar” a agroindústria nos EUA. Hoje de volta a Indiana, para fechar os contratos com os investidores, Howell deve voltar à Bahia no fim do ano para concluir a compra da fazenda e começar o negócio. A intenção é contratar de 25 a 30 pessoas para o trabalho.

O economista tem um discurso diferente de outros fazendeiros americanos que vendem o Brasil como uma nova “corrida do ouro”. “Vejo muito esse discurso de ficar rico rápido, de ressaltar apenas o preço baixo da terra e do trabalho”. De fato, alguns fazendeiros ressaltam aos amigos americanos os baixíssimos salários no interior do Brasil, lembrando que o salário mínimo representa menos de US$ 3 (R$ 9) ao dia e é considerado bom em algumas regiões remotas do país. “Acho que esse não é o único fator. A mudança é mais profunda na indústria agropecuária global. A vantagem competitiva continuará no Brasil a longo prazo, mesmo depois que os preços da terra e os salários subam com o desenvolvimento do país ” , afirma Howell.

Agência se especializa em investimentos no cerrado

De Washington

O interesse de produtores americanos em investir em agricultura no Brasil é tão grande que começam a aparecer nos Estados Unidos agências especializadas na corretagem de terras e na assessoria agrícola no cerrado brasileiro para estrangeiros.

A AgBrasil, sediada em Columbia, no Estado do Missouri, já tem escritórios no Rio de Janeiro e em duas cidades da Bahia onde concentra a intermediação de negócios: Luís Eduardo Magalhães e Barreiras, que formam o principal pólo baiano de soja.

O dono da empresa é um economista agrícola, Philip Warnken, que recebeu bolsas de pesquisa da Ford Foundation e da Fundação Fullbright para trabalhar no Ministério da Agricultura brasileiro e pesquisar economia agrícola em São Paulo. Warnken tem um extenso currículo internacional, e, entre outros pontos, já visitou faculdades de economia agrícola na Europa e em países da América Latina – Nicarágua e Colômbia, além do Brasil – e trabalhou como consultor agrícola em organizações internacionais como a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID) dos Estados Unidos.

Mas, naturalmente, ele estabeleceu uma maior ligação com o Brasil depois que abriu sua companhia, em 1999. A AgBrasil organiza viagens de investidores interessados na compra de terras e, eventualmente, na relocação para o Brasil. “Já levamos cerca de 400 interessados em viagens ao Brasil. A maior parte é de investidores, não apenas americanos mas também europeus e asiáticos”, disse Harnken em entrevista por telefone ao Valor.

Uma minoria decidiu mudar e está morando no Brasil, mas a maior parte quer comprar a terra como investimento e deixar a administração nas mãos de brasileiros, usando intermediários americanos para ajudar na contratação de pessoal. O foco da empresa é a venda de terras no cerrado, considerada “a terra agricultável mais barata do hemisfério”, segundo informações de seu website. A empresa afirma estar interessada nas regiões de fronteira – no oeste da Bahia próximo à fronteira com Tocantins e sul do Piauí. Ao contrário de outras iniciativas voltadas para agricultores americanos, Harnken diz que, no seu caso, “há apenas alguns que são fazendeiros, mas a maior parte é mesmo de investidores internacionais”.

Os baixos custos da terra e a abundância de mão de obra são os principal incentivos ao investidor, e Harnken diz que taxas de retorno do investimento acima de 25% não são incomuns, o que é um nível expressivamente alto para investidores que estão lidando com baixíssimas taxas de juros em seus países de origem.

“É claro que o retorno depende do preço pago pela terra e dos preços das commodities. Entre as opções estão o cultivo de soja, algodão, milho e café. Em alguns casos houve retornos superiores a 100% em commodities como algodão entre o fim do ano passado e o início deste ano, mas são casos específicos”. Entre os funcionários da empresa, estão dois agrônomos brasileiros em Barreiras, José Cláudio Oliveira e José de Espírito Santo, além de agricultores americanos radicados na Bahia que ajudam os investidores com contatos no mercado local, como Clay Earl e Thomas Shanks.

Para investidores que não querem se envolver diretamente na administração de uma fazenda, ainda que à distância, a empresa vende cotas de investimento em propriedades agrícolas de valores altos – de US$ 250 mil no ano passado para cerca de US$ 400 mil neste ano. Cada “módulo” de investimento corresponde a uma propriedade de pelo menos 300 hectares, parcialmente irrigados.

Os investidores precisam ir pelo menos uma vez ao Brasil para finalizar a documentação da compra da terra, que é realizada por meio de uma empresa de propósito específico aberta no Brasil. Harnken não acredita que apenas a desvalorização cambial explique o interesse pelas terras em desenvolvimento no cerrado.

“Os principais motivos são a alta produtividade e os baixos custos de produção para todas as comodities, além do tremendo potencial de crescimento dos lucros”, ensina o executivo. (TB)

Ver mais em www.agbrazil.com

Jornal Valor Econômico – 23/7/2004
http://www.valor.com.br

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Da Redação


Com a presença do governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, o Carrefour e a Granja Ideal Porc assinam hoje, na Fazenda Ribeiro do Céu, em Nova Mutum, a 240 quilômetros de Cuiabá, um contrato de fornecimento de 24 toneladas semanais de carne suína com o selo Garantia de Origem (GO) da rede de hipermercados.

A carne suína com garantia de origem chegará, nos primeiros dias de agosto, a 17 lojas Carrefour de São Paulo, Campinas, São José dos Campos, Sorocaba, Jundiaí, São Vicente e Osasco.


Gazeta Mercantil – 23/7/2004
http://www.gazetamercantil.com.br

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Da redação


Genebra (Suíça) – Os mediadores da Organização Mundial do Comércio (OMC), renderam-se ontem às pressões vindas dos mais diferentes setores e começaram a revisar os planos para uma reforma no comércio de produtos agrícolas, principal questão a ser resolvida para possibilitar um pacto de comércio global, depois que o esboço anterior foi rejeitado tanto por países ricos, como pobres.

Apesar do alerta do chefe da OMC, Supachai Panitchpakdi, de que o prazo-limite do acordo, fim de julho, deixa pouco tempo para alterações, fontes próximas às negociações disseram que as fortes críticas ao esboço inicial tornam a revisão inevitável.

“Isso não pode ser evitado após a noite passada”, disse ontem uma fonte, referindo-se à reunião do G-20, onde os países em desenvolvimento levantaram sérias objeções. O Brasil, porta-voz da aliança, disse na reunião a portas fechadas que o projeto “necessita de importantes mudanças e aperfeiçoamentos”, segundo o texto dos comentários, obtido pela Reuters. A França também disse que o acordo precisa de alterações substanciais, dizendo que a oferta da União Européia de eliminar subsídios de exportação não foi aceito por outros países aliados ao bloco.

Os países em desenvolvimento temem que o plano agrícola, projetado pelo embaixador da Nova Zelândia, Tim Groser, não force os países ricos a cortarem seus subsídios. Os membros da OMC querem se reunir dia 27 de julho, para finalizar o pacto. O não cumprimento desse prazo pode colocar as negociações em crise. Autoridades de comércio temem que se ocorrer outro revés na reunião de julho, pode demorar anos para as negociações ganharem força novamente. “Devido ao desequilíbrio, as negociações podem falhar, o que teria conseqüências péssimas para o futuro do multilateralismo e redução global da pobreza”, disse Oxfam em um comunicado.

Além da Oxfam, várias ONGs acusaram ontem, em Genebra, os países ricos de pressionar as nações em desenvolvimento para que assinem um acordo de liberalização comercial contrário a seus interesses. “Os países em desenvolvimento foram colocados entre a cruz e a espada: ou aceitam um texto descafeinado ou serão acusados de ter causado o fracassado das negociações”, disse a representante da Oxfam, Céline Charveriat. Ela se referia ao prazo fixado pelo presidente do Conselho Geral da Organização Mundial do Comércio, o japonês Shotaro Oshima, para a aprovação, com “um mínimo de modificações”, de um texto que os países do G-20 classificam de “desequilibrado”. “Apesar de suas repetidas promessas de reforma (agrícola), os países ricos seguiram uma política baseada no próprio interesse e culparam insistentemente todos os demais por uma eventual paralisia” nas negociações da rodada de Doha.

Gazeta Mercantil – 23/7/2004
http://www.gazetamercantil.com.br

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