O consenso científico cresce cada vez mais. As evidências de que as mudanças climáticas provocam processos novos, em níveis regionais, vão se avolumando. Nesta terça-feira (8/11/05), em São Paulo, durante a 2ª Conferência Regional Sobre Mudanças Globais: América do Sul, organizada pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), surgiram provas dessas alterações tanto na Mata Atlântica como no Cerrado.

“Já sabemos que está mudando, isso é possível perceber. Na floresta atlântica, por exemplo, muda a temperatura, o florescimento se altera e a ação dos polinizadores também”, disse Carlos Alfredo Joly, pesquisador e professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Agência FAPESP. O conferencista de uma das sessões do evento no IEA admitiu preocupação diante do que está sendo revelado.

Para Joly, há no Brasil a falta de uma base sólida. “Não temos como comparar essas mudanças com algum trabalho-chave realizado há 50 anos, por exemplo. Fica complicado saber para onde vamos”, afirma. Em termos macrossistêmicos, as projeções feitas pelo pesquisador não são boas.

“Para São Paulo, os campos de altitude e as florestas acima dos 1,2 mil metros tendem a desaparecer. As matas de araucária também deverão sofrer uma redução drástica em seus limites”, disse. Se a situação já está ruim para a região das serras paulistas, rumo ao interior, para o ecossistema Cerrado, ela pode piorar ainda mais.

Os impactos das mudanças climáticas sobre o Cerrado são difíceis de prever, entre outros motivos, por causa da grande fragmentação desse tipo de formação. “Hoje, existem 8,5 mil fragmentos de Cerrado em São Paulo, dos quais apenas 20 têm mais de 500 hectares”, disse Joly. Segundo ele, essas áreas maiores são consideradas suficientes para preservar a sobrevivência, em se tratando de grandes vertebrados, de apenas um casal de lobo guará, por exemplo.

Se de um lado os pesquisadores desenvolvem modelos para entender melhor o que está ocorrendo em determinados ecossistemas – e para isso serão necessários mais estudos em ecofisiologia e biogeografia, entre outras áreas –, Joly defende também outras ações, fora do âmbito exclusivamente científico.

“Precisa haver mais diálogo, por exemplo, entre os ministérios da Ciência e Tecnologia e o do Meio Ambiente. Não se pode falar em mudanças climáticas sem relacionar isso com ecossistemas e com biodiversidade. A troca de informações precisa ser maior”, aponta o pesquisador.

Eduardo Geraque

Fonte: Agência Fapesp

Compartilhe esta postagem nas redes sociais

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.