Priscilla Murphy/AE


Entrevista: Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores

O Governo brasileiro está disposto a confrontar a China na Organização Mundial de Comércio (OMC) se todas as alternativas para uma solução amigável do embargo à soja brasileira falharem, disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O chanceler fez balanço das negociações feitas durante a 11a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), na semana passada.

O conflito da soja pode prejudicar o relacionamento do Brasil com a China?
CELSO AMORIM
– Evidentemente, queremos resolver a questão da soja. Temos tratado disso inclusive do ponto de vista político. Eu mesmo intercedi, nossos embaixadores têm entrado em jogo diplomático, não puramente técnico. Há intenção de contatos políticos de alto nível e uma missão já partiu para a China. O importante é resolver isso amistosamente. Mas o recurso à OMC é possibilidade que existe. Se tiver que ser, será. Mas espero que antes disso seja resolvido e tenho confiança de que será.

No G-5, os Estados Unidos e a União Européia firmaram compromisso de eliminar subsídios?
– Vi disposição positiva. Este é um problema entre UE e EUA, que nos afeta. Mas é a primeira vez que estamos tendo oportunidade de opinar. Se não houvesse o G-20, não estaríamos nem discutindo se haveria eliminação de subsídios. Senti da parte de ambos (os representantes de comércio da UE, Pascal Lamy, e dos EUA, Robert Zoellick, que estiveram na Unctad) que têm preocupações. Os europeus dizem: ’Só posso eliminar os subsídios se as outras formas de apoio também forem eliminadas’. Os americanos dizem que só podem eliminar o elemento de subsídio que existe nas outras formas de apoio. Fizemos reflexão profunda sobre como podemos avançar. Não só nessa área, mas também na de acesso a mercados e apoio doméstico. E conseguimos, creio eu, identificar áreas onde há possibilidade de progresso na discussão técnica em todos esses temas. Identificamos convergências potenciais. Senti um clima de encontrar uma solução, embora haja uma necessidade de equivalência. É uma coisa sutil chegar lá. Mas tenho confiança de que podemos chegar porque estamos trabalhando nesse sentido.

Por que o atual momento é janela de oportunidade para o avanço das negociações comerciais?
– Primeiro, porque a economia mundial está crescendo e não se sabe por quanto tempo vai continuar a crescer. Os momentos de crescimento são mais propícios às negociações. Em segundo lugar, chegamos a estágio nas negociações com a UE em que, se não complicarmos o jogo agora, podemos concluir. Mas se paralisarmos o jogo, vai mudar a Comissão Européia, outras negociações vão se desenvolver ou não e vamos perder esse impulso. Acho que seria lamentável.

O Itamaraty mudou em relação ao Governo passado?
– O Itamaraty é ministério de Estado, que defende o interesse do Estado brasileiro. Sempre há interpretação de quais são os melhores interesses, que não são necessariamente as mesmas. Há mudança de ênfase. A ênfase na integração sul-americana é mais forte, no comércio e na cooperação Sul-Sul, sem detrimento das outras negociações. E acho que houve modificação também na intensidade. A política externa brasileira nunca foi tão tratada na mídia internacional. Nunca houve visita presidencial para nenhum país que tenha sido tão noticiada quanto a visita do presidente Lula à China. Em grande parte, é pela figura do presidente, do que ele simboliza. Mas o Itamaraty também, digamos, tem assumido suas responsabilidades em termos de intensidade. É um engajamento profundo, mas com o Brasil. Não que outros não tenham feito isso, mas estamos fazendo com um entusiasmo que nem sempre esteve presente.

Ainda existe alguma esperança de concluir a Alca este ano?
– Tenho mantido contato constante com Zoellick sobre a Alca também. Temos tentado avançar com um espírito pragmático. Hoje a negociação com a UE está mais avançada porque envolve apenas dois blocos, não 34 países. Conversando diretamente com o interessado, é mais fácil avançar. Coloquei muito esforço na Alca, não foi pouco não. Em outubro, abandonei o presidente da República em Moçambique para ir conversar com o Zoellick, para chegarmos a um arcabouço que resultou em Miami. Na minha opinião, tínhamos um modelo que poderia levar rapidamente a uma finalização. Daí surgiram algumas dúvidas que na prática significavam reabrir Miami, demos um passo atrás. A negociação com a UE está muito mais avançada e as coisas que avançam exigem mais concentração, pois não temos equipes infinitas. Então, hoje em dia a concentração número um é a OMC e a número dois é a UE. Não porque a Alca seja menos relevante. É só porque está mais atrasada, não por nosso desejo.

Jornal do Comércio/RJ – 19/06/2004
http://www.jornaldocommercio.com.br/

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Paulo Braga De Buenos Aires

O temor de que carregamentos com soja da Argentina enfrentem os mesmos problemas que estão ocorrendo com cargas brasileiras levaram tradings do país a suspender temporariamente os embarques à China.

Segundo a Câmara da Industria de Óleos Vegetais, que reúne as maiores exportadoras de grãos do país, algumas companhias optaram pela suspensão até que a situação no mercado fique mais clara. Nas últimas semanas os chineses rejeitaram navios de soja do Brasil alegando contaminação com sementes tratadas com agroquímicos.

Especialistas argentinos fazem coro com colegas brasileiros e afirmam que a postura chinesa busca, na verdade, fazer valer o peso da demanda do país asiático nas cotações internacionais.

“Ainda não é possível precisar a magnitude do problema, mas algumas empresas estão cancelando envios”, afirmou Alberto Rodríguez, diretor executivo da câmara setorial. Ele não revelou quais as empresas que adotaram essa estratégia. As grandes multinacionais que operam no Brasil, como Cargill, Bunge e ADM, também atuam no país vizinho.

No ano passado, o país vendeu aos chineses cerca de 6 milhões de toneladas de soja, e a melhora observada neste ano no desempenho das exportações argentinas – cresceram 23% nos quatro primeiros meses de 2004 – se explica, principalmente, pela valorização da soja no exterior e pela expansão das vendas à China.

Até abril, os embarques argentinos de soja responderam por 85% das vendas totais do país ao mercado chinês, que somaram US$ 1,2 bilhão. No total, as exportações argentinas alcançaram US$ 10,3 bilhões no período.

O governo argentino também depende das exportações de soja como fonte de receita, porque cobra um imposto de 20% sobre as vendas externas do produto.

O ministro de Comércio chinês, Bo Xilai, participou ontem, em Buenos Aires, de um seminário preparatório à visita que o presidente argentino, Néstor Kirchner, fará à China no fim deste mês. Bo Xilai não comentou eventuais problemas com os carregamentos de soja, mas em contatos com funcionários do governo teria dito que a China não deixará de comprar soja argentina, segundo um comunicado emitido pela chancelaria argentina.

Embora a declaração tenha sido interpretada pela imprensa local como um sinal tranquilizador, um diplomata argentino ouvido pelo Valor afirmou que ela não significa qualquer compromisso de que os carregamentos de soja do país não serão bloqueados em portos chineses.

Kirchner deve ir à China com uma delegação de mais de 100 empresários, e Bo afirmou que seu país pode incrementar suas compras de soja, carne, couro e madeira argentinas, além de fazer parcerias na área de biotecnologia. O ministro chinês afirmou que a Argentina tem potencial até para superar o Brasil nas vendas ao seu país, que, de acordo com ele, atingiram cerca de US$ 8 bilhões no ano passado.

Jornal Valor Econômico – 2/6/2004
http://www.valor.com.br

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André Deak


“As Nações Unidas deveriam produzir estudos que mostrassem o resultado de uma política anti-dumping no comércio agrícola mundial”, disse o representante norte-americano do Instituto para Agricultura e Políticas Comerciais (IATP), Dennis Olson, à Agência Brasil. “Seria possível então criar um cartel agrícola do trigo, por exemplo, como a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). Suas ações seriam baseadas nesses estudos, para nunca deixar cair o preço de certos produtos abaixo de um limite aceitável”. A proposta foi feita durante o Fórum da Sociedade Civil (FSC), evento paralelo à 11a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento.

Durante os últimos anos, o preço de produtos como o algodão, o café e o trigo, entre muitos outros, vem caindo em proporções enormes. Nos Estados Unidos, um maiores exportadores agrícolas mundiais , “onde há subsídios para agricultura de US$23 bilhões por ano”, conforme informa Olson, “o trigo é vendido pelas multinacionais abaixo até mesmo do preço de custo. Nenhum pequeno agricultor pode suportar isso.”

Para tentar impedir isso, uma das propostas levantadas durante o FSC foi que os países em desenvolvimento que fossem grandes produtores de algum commoditie agrícola – o trigo, por exemplo – unissem forças para barrar a produção em caso de dumping internacional. O dumping é a prática de vender abaixo do preço de custo para levar à falência os produtores concorrentes.

Críticas
Aumentar o preço da matéria-prima, entretanto, não levaria a um aumento do preço final dos produtos, na prateleira do supermercado? Os painelistas que estavam no debate sobre dumping norte-americano garantem que não. De acordo com eles, as multinacionais, que são detentoras de boa parte da linha de produção e distribuição, tentam jogar o preço final do produto para o alto e pagar o mínimo possível para os agricultores.

O agricultor francês José Bové, presente na sessão, afirmou que “mesmo que se aumente em 30% o preço dos commodities agrícolas, apenas 2% do preço do produto final será alterado”. Dando um exemplo, Olson disse que “se uma caixa de cereais de trigo custasse um dólar, o custo do trigo contido ali seria de apenas quatro centavos. O que encarece o produto é a embalagem”, garantiu.

Agência Brasil – 15/06/2004
http://www.radiobras.gov.br

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João Alberto Aguiar


Um pequeno dispositivo eletrônico de 10 centímetros de comprimento por 10 centímetros de largura, capaz de medir objetivamente o comportamento do gado em apenas 15 segundos, pode se tornar um aliado do pecuarista a partir do momento em que for lançado em série, provavelmente no início de 2006. Com o aparelho, que é acoplado a um recipiente móvel qualquer, normalmente uma balança, é possível levantar dados sobre o comportamento do animal no tocante, por exemplo, à movimentação da cauda, coices, intensidade de mugidos e da respiração e saltos.
“Os dados levantados servem de base para uma análise das reações do animal, que recebe uma determinada pontuação, de zero a 9.999. Sendo assim, é possível descobrir se ele possui um temperamento mais agressivo ou mais calmo”, explica a capixaba Walsiara Estanislau Maffei, formada em Zootecnia pela Universidade Federal de Lavras, no final de 1999, uma das responsáveis pelo desenvolvimento do método.
Quanto maior a pontuação do animal durante o teste, maior a sua reatividade, que está relacionada com a produtividade e a fertilidade. Segundo Walsiara, quanto mais calmo for o animal, maior a chance de ele vir a produzir carne de melhor qualidade e em maior quantidade, pois no último caso há ganho de peso, o que interessa aos produtores, principalmente os exportadores. Experimentos indicam que o animal mais dócil também produz couro de melhor qualidade e é mais fértil.
Os testes com o dispositivo eletrônico estão sendo feitos com criadores das fazendas Colonial, em Janaúba (Norte de Minas); Naviraí Agropecuário, em Uberaba (Triângulo Mineiro) e Mato Grosso do Sul; Rancho da Matinha, em Uberaba; e Perdizes, do grupo paulista Quilombo. O pecuarista interessado em participar do projeto ou conhecer mais sobre a técnica pode fazer contato através do e-mail wemaffei@uol.com.br . Para Walsiara Maffei, a repercussão do projeto está acima da esperada.
“A gente já sabia que o aparelho, que é inédito no mundo, seria importante para o setor pecuário. Isso porque o Brasil é hoje o maior exportador de carne bovina do mundo, e precisa de uma carne de qualidade. O melhoramento genético, a partir de um rebanho de temperamento mais calmo, vai melhorar muito a qualidade da carne e dar mais competitividade ao país no exterior. A procura de informações sobre o método, por parte dos criadores, tem sido muito grande”, observa Walsiara, acrescentando que o método é eficiente também para outros animais, como suínos e equinos.
O aparelho, que começou a ser desenvolvido há cerca de dois anos, em parceria com o Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), está patenteado pela escola. O método recebeu o nome de Reatividade Animal em Ambiente de Contenção Móvel, tese de mestrado defendida por Walsiara na escola de Medicina Veterinária da UFMG, em fevereiro deste ano. A zootécnica não está satisfeita apenas com a possibilidade de arrecadar dividendos com a comercialização do dispositivo, já que possui um terço da patente, ao lado de outros profissio nais. “A repercussão do projeto é um reconhecimento do meu trabalho e estudo.”

Tecnologia chega para expandir pecuária bovina

O aparelho eletrônico, que mede de forma objetiva o temperamento de animais, surge no momento em que a pecuária bovina de corte do país passa por um período de expansão. Em 2004, a produção brasileira deverá alcançar 8 milhões de toneladas, o que representaria um aumento de 4% em relação a 2003. O rebanho bovino também continua em crescimento, atualmente estimado em 191,2 milhões de cabeças, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O abate total neste ano está estimado em aproximadamente 40 milhões de cabeças bovinas.
De acordo com o Mapa, a produtividade do setor também tem avançado, com redução da idade de abate e aumento da taxa de desfrute do rebanho. Esses fatores têm sido importantes devido à necessidade crescente de geração de excedentes para atender ao crescimento da procura do produto por parte do mercado externo. Quanto ao consumo per capita de carne bovina no país, a situação é de estagnação nos últimos anos, devendo, neste ano, permanecer na faixa de 36,7 quilos, praticamente o mesmo de 2003.
De janeiro a abril de 2004, as exportações brasileiras de carne bovina foram de US$ 667 milhões, o equivalente a um crescimento de 54,85% na comparação com o mesmo período do ano passado. Entre maio de 2003 e abril de 2004, as vendas totais de carne bovina atingiram US$ 1,746 bilhão, com elevação de 47,5%. A expectativa do Governo brasileiro é de que as vendas externas cresçam neste ano de 15% a 20%. Em 2003, as exportações brasileiras de carne bovina in natura e industrializada somaram US$ 1,5 bilhão.

Pecuarista testa invento de olho na objetividade

Avaliar o comportamento do gado não é novidade para Luciano Borges Ribeiro, da Fazenda Rancho da Matinha, em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Criador de gado Nelore há 27 anos, há seis anos ele vem se dedicando de forma sistemática à análise da conduta dos bois e vacas, se mais calma ou nervosa. “Antes, o nosso julgamento, às vezes, era subjetivo. Com o novo aparelho eletrônico, as avaliações ficam mais objetivas”, explica. O foco da fazenda é a produção de touros para reprodução. O material genético é fornecido tanto para centrais de inseminação, que coletam o sêmen para a venda em escala, quanto para a monta natural.
“Como fornecedores de material genético, temos que procurar sempre o que existe de melhor no mercado, o que produz o melhor resultado econômico possível”, comenta Ribeiro. Através das avaliações feitas com o plantel, o pecuarista descobriu que animais que se reproduzem mais precocemente são também precoces para o abate. “Uma das características observadas nas fêmeas precoces é que elas, via de regra, são de bom temperamento. Com apenas 24 meses de vida já estavam parindo. Quanto ao boi, esse também é mais interessante economicamente, pois fornece a melhor carne.”
Apesar de o aparelho eletrônico estar sendo testado pelo criador há cerca de um ano, segundo ele, dentro do que foi preestabelecido, ainda não existe um parecer sobre a novidade. “Ainda não chegamos a lugar nenhum. O processo de seleção do gado é demorado, já que o ciclo de vida do animal é longo”, pondera. Ribeiro espera que, com a ajuda do aparelho, seja possível se obter o diagnóstico do temperamento de um animal quando ele estiver na desmama, com algo em torno de sete meses de vida. “Dessa forma, se o animal for ruim, já o descarto com antecedência.”
Para o professor José Aurélio Garcia Bergmann, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), orientador do trabalho desenvolvido pela zootécnica Walsiara Estanislau Maffei, a fase de testes ainda deve durar cerca de dois anos. “O aparelho é eficiente. Mas, em ciência, é preciso ter uma prova concreta”, afirma.

Jornal Hoje em Dia – Belo HorizonteMG – 20/06/2004
http://www.hojeemdia.com.br/

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