Karla Correia


País asiático quer levar do Brasil até 3 bilhões de litros de etanol por ano. O Japão quer investir na produção brasileira de etanol. Está na pauta do Banco de Cooperação Internacional do Japão (JBIC), instituição de fomento do governo japonês, financiamento de US$ 600 milhões para pesquisa e desenvolvimento no setor, para atender à demanda japonesa pelo combustível. O diretor do banco, Koichi Yajima, se encontrou ontem com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, para discutir as bases do acordo entre os dois países.

Metade do investimento seguirá para o plantio e a agroindústria alcooleira. Os outros US$ 300 milhões serão destinados a projetos de logística e infra-estrutura voltados para o escoamento da produção, detalhou Roberto Rodrigues. Segundo ele, cerca de US$ 45 milhões já têm como destino certo o Pólo Nacional de Biocombustíveis, lançado em janeiro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com sede em Piracicaba (SP).

O aporte japonês virá do Ministério da Ciência e Tecnologia do país e da New Energy Development Organization (Nedo), organização não-governamental japonesa que financia projetos de fontes renováveis de energia. O acordo ainda prevê contrapartida do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ainda não definida, e a securitização dos créditos pelo faturamento com os embarques brasileiros de álcool. A produção de outros biocombustíveis, como o biodiesel, também faz parte dos interesses do JBIC no Brasil.

Garantia de fornecimento

O governo japonês quer, do Brasil, a garantia do fornecimento de 2 a 3 bilhões de litros de etanol por ano. A demanda gerada com a aprovação da mistura de 3% de álcool na gasolina que abastece os automóveis japoneses é de cerca de 1,8 bilhão de litros por ano, o equivalente a 13% do consumo total do combustível no Brasil. O excedente seria uma margem de segurança, visto que existe a expectativa de aumento no percentual da mistura para 10% de álcool na gasolina japonesa.

Bem sucedida, a experiência com o Japão abrirá espaço para o etanol brasileiro em outros mercados asiáticos, como China, Tailândia e Índia, diz o ministro. “Existe uma tendência forte nos países asiáticos pela introdução de fontes de energia alternativas ao petróleo”, acredita.

Segundo Rodrigues, o plantio brasileiro de cana-de-açúcar – cerca de 5,5 bilhões de hectares – é suficiente para abastecer a demanda do Japão por etanol. Os investimentos mais urgentes para garantir o incremento no fluxo de exportações seriam na área de logística e infra-estrutura, na avaliação do ministro. Hoje, o Brasil exporta cerca de 150 milhões de litros de álcool por ano para o Japão.


Gazeta Mercantil – 20/7/2004
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Lucia Kassai

O Brasil poderá dobrar a área cultivada com soja transgênica na safra 2004/05. De acordo com a Associação Brasileira de Sementes (Abrasem), o plantio pode atingir 6,4 milhões de hectares, ou o equivalente a 30% da área projetada em 21,2 milhões de hectares. Em 2003/04, estima-se que a área ocupada com soja geneticamente modificada foi de 3 milhões de hectares.

“O plantio está proibido, mas os agricultores vão plantar soja transgênica, com ou sem medida provisória”, diz Ywao Miyamoto, presidente da Abrasem.

A área cultivada proporcionaria uma produção entre 14,5 milhões e 17,5 milhões de toneladas. Os dados da Abrasem são baseados na oferta de 200 mil a 250 mil sacas de 50 quilos de sementes básicas. As sementes básicas são multiplicadas pelos produtores de sementes antes de irem a mercado. A oferta é composta por 23 variedades regionais que podem ser plantadas no cerrado (Centro-Oeste), Minas Gerais e Rio Grande do Sul, entre outros. “A oferta é bastante diversificada e atende todo o Brasil”, diz Miyamoto.

Crescimento explosivo

A área cultivada com transgênicos em todo o mundo deve crescer entre 10% e 15% em 2004, ficando entre 74,5 milhões e 77,8 milhões de hectares. “A área deve continuar crescendo a uma taxa de dois dígitos”, prevê Clive James, presidente do Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações em Agrobiotecnologia (Isaaa, da sigla em inglês). “Somente nos EUA, as estimativas preliminares apontam para um aumento de 10% da área”, diz. A Isaaa é uma organização sem fins lucrativos que defende a utilização da biotecnologia na agricultura.

O incremento de área continua a ser puxado pela soja. A oleaginosa ocupou 61% da área global de lavouras transgênicas, o equivalente a 41,4 milhões de hectares. O milho ocupa o segundo lugar, com 15,5 milhões de hectares, ou 23% da área mundial. A maior parte do milho transgênico é cultivado nos EUA.

A Isaaa estima que no ano de 2003 cerca de 55% dos 76 milhões de hectares cultivados com soja eram geneticamente modificados. Em 2002, a porcentagem era pouco menor, de 51%.

A organização calcula que em 2003 os OGMs criaram uma receita de US$ 4,5 bilhões, um crescimento de 12,5% em relação ao faturamento de US$ 4 bilhões apurado no ano anterior.

James, que participou do seminário Panorama Mundial dos Cultivos Transgênicos, na Fundação Getúlio Vargas, defendeu a biotecnologia como aliada das pequenas propriedades rurais na redução da pobreza. “Não sei se a redução da pobreza deveria ser o foco, uma vez que no Brasil as pequenas propriedades não plantam as culturas contempladas pelas pesquisas de transgenia, como milho ou soja”, diz o professor José Maria da Silveira, professor da Universidade de Campinas (Unicamp). Silveira observou que as pequenas propriedades brasileiras, como em algumas regiões do Nordeste, dedicam-se à fruticultura ou à produção de flores para exportação.


Gazeta Mercantil – 20/7/2004
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Da redação


A Monsanto obteve aprovação da Comissão Européia (CE) para uma de suas variedades de milho geneticamnte modificado destinado à dieta animal como parte dos esforços da União Européia (UE) para abrandar as restrições aos alimentos biotecnológicos e a disputa comercial transatlântica.

A decisão tomada pelo braço executivo da UE representa o primeiro endosso de um produto biotecnológico da Monsanto em seis anos. A CE tenta acelerar as aprovações da União Européia de alimentos transgênicos, incluindo diversos desenvolvidos pela Monsanto, a maior produtora em um mercado global de safras biotecnológicas, que acumularam vendas de até US$ 4,75 bilhões no ano passado, segundo fontes do setor.

Muitas pendências

“Nós saudamos a decisão. É um passo encorajador”, disse Daniel Rahier, diretor de assuntos industriais da Monsanto, em Bruxelas. Uma divisão entre os 25 países da UE em junho deu à CE poder para decidir sobre o produto, conhecido como NK603. A CE autorizou em maio a importação de um tipo de milho transgênico, dos Estados Unidos e de outras nações, produzido pela suíça Syngenta, uma das maiores fabricante de produtos químicos agrícolas do mundo. Essa foi a primeira vez que a região aprova um alimento biotecnológico desde 1998 e que também foi seguida por uma divisão entre os países da UE. Atualmente, mais de 30 solicitações continuam pendentes.

“Essa é uma grande vitória”, disse Michael Judd, um analista da Greenwich Consultants, em Nova Jersey, Estados Unidos, que classifica as ações da Monsanto como “mantenha a posição”. O tempo dirá quantos volumes serão importados, disse Judd. O Greenpeace, a ONG que fez lobby contra os alimentos biotecnológicos, informou que a CE ignorou as exigências dos consumidores.

“A maioria dos consumidores não quer organismos geneticamente modificados e os estados-membros não concordaram em conceder aprovação para eles”, disse Eric Gall, um conselheiro do Greenpeace em Bruxelas, em uma nota.

“A CE desafia a democracia ao levar adiante essas aprovações para satisfazer o lobby biotecnológico e seus defensores norte-americanos”, disse Gall. Mais de 60% dos cidadãos da UE provavelmente não consumirão esses alimentos com modificações genéticas, mesmo se as mercadorias forem mais baratas ou menos gordurosas, segundo uma pesquisa da UE entre cerca de 1 mil pessoas em cada país do então bloco de 15 países, publicada no ano passado.

“Em termos de potencial de mercado, a aprovação de ontem do uso do milho para ração é mais importante” do que a permissão para uso na alimentação humana, disse Rahier.

Briga na OMC

Os EUA, a Argentina e o Canadá, os três maiores produtores de sementes transgênicas, reclamaram à Organização Mundial de Comércio (OMC) contra as restrições da UE. As limitações afetam produtos que vão de grãos a tomates cujo material genético foi alterado para adicionar traços benéficos como resistência aos herbicidas, limitando o número no mercado da UE para 14 até a Syngenta e a Monsanto receberem autorização.

A UE concedeu aprovação desse tipo de milho para ração por dez anos. Não será necessário reabrir as exportações norte-americanas de milho à UE porque o produto é misturado com outras variedades de milho transgênico que ainda precisam obter o endosso. As exportações de milho dos EUA à UE vão principalmente à Espanha e Portugal.


Gazeta Mercantil – 20/7/2004
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Assis Moreira De Bruxelas

Comércio Exterior – Europeus também podem ampliar proposta em alimentos processados

A União Européia (UE) deu ontem ao Mercosul “indicações” de “possíveis” melhoras na sua oferta agrícola para as exportações do bloco do cone sul. O secretário de Comércio Exterior da Argentina, Martin Redrado, disse que o aumento de cotas para exportação de carnes fez parte do primeiro dia de barganha real entre os dois blocos.

Além de admitir que há margem para aumento de cotas, Bruxelas evoluiu sua posição sobre os produtos agrícolas processados (PAPs), de especial interesse do Mercosul. Até agora, somente era oferecido preferência tarifária de 50% sem reduções posteriores. Ontem, outra idéia apresentada foi negociar reciprocidade plena onde houver consenso no Mercosul.

Com isso, os dois blocos poderão negociar eliminação tarifaria em determinados setores, como peixes e biscoitos. O primeiro é do maior interesse da Argentina. O setor pesqueiro argentino exportou o dobro de peixes (US$ 600 milhões) do que de carnes (US$ 300 milhões) para o mercado europeu em 2003 e pode ampliar bastante as vendas se obtiver tarifa zero frente aos 16,5% atuais. Por sua vez, os europeus poderão ampliar suas exportações de salmão, sardinhas espanholas e outros produtos.

Pela primeira vez, a UE indicou que poderia dar em 2008 a segunda parte das cotas para o Mercosul, indiferente se a negociação na OMC terminar naquela data ou não. Até agora, os europeus diziam que dariam 50% da cota na assinatura do acordo regional, e o Mercosul poderia ficar sem a outra metade se Bruxelas tivesse que fazer muitas concessões na OMC.

Ontem, o Mercosul martelou que a segunda etapa de cotas tem valor econômico zero. O que interessa ao bloco é o que está na mesa, e por isso entende que Bruxelas precisa aumentar muito as cotas.

A UE aceitou o princípio de eliminação de subsídios na exportação de produtos agrícolas para o Mercosul, segundo Redrado. Isso dá coerência à posição do Mercosul, que pede eliminação dos subsídios agrícolas em todas as negociações. Na área de telecomunicações, os europeus insistem em negociar não apenas melhor acesso para suas empresas, como também revisão da Lei Geral de Telecomunicações (LGT) para assegurar que seus investimentos não serão atingidos por reviravoltas no pais.

O chefe da delegação do Brasil, embaixador Regis Aslanian, retrucou que, sob essa mesma lei, as empresas de telecomunicações estrangeiras já obtiveram lucros bilionários desde sua adoção no governo passado.

Com relação a compras governamentais, Aslanian disse que o Mercosul só apresentará formalmente sua oferta melhorada, dando preferências a empresas européias em licitações publicas, depois de confirmar as novas concessões européias em agricultura.

Aslanian e Redrado reiteraram na abertura do Comitê de Negociações Birregionais (CNB) que o Mercosul quer fechar um acordo até outubro, mas não a qualquer preço. A mensagem foi de que por mais importante politicamente que seja um acordo regional, se não houver ganhos econômicos substanciais o Brasil e a Argentina não terão como sustentar internamente o compromisso. Bruxelas reconheceu, segundo negociadores do Mercosul, que o bloco do Sul melhorou as ofertas. Mas só poderá detalhar possíveis melhoras em agricultura em agosto, em Brasília.

Hoje, os setores automotivos do Brasil e da Argentina tentarão negociar entre eles uma oferta para a UE, que também dará enorme peso ao pacote. A Adefa, dos fabricantes argentinos, favorece cota fixa para veículos de luxo europeus, acompanhada de redução tarifária ao longo de dez anos até chegar a zero. Já a Anfavea quer oferecer cota com expansão anual de 10%, e desgravação no décimo-primeiro ano.

Exportador de bananas quer cota de 120 mil/t

De Genebra

A multinacional americana de bananas Del Monte está disposta a investir mais US$ 120 milhões no Brasil, dependendo do resultado da negociação Mercosul-União Européia. É o que diz seu diretor jurídico no Brasil, Newton Assunção. Ele participa da delegação brasileira que negocia esta semana com os europeus na capital belga.

A UE ofereceu ao Mercosul cota de 30 mil toneladas de bananas, mas só a Del Monte afirma que exporta do Brasil para o mercado europeu 60 mil toneladas de banana chiquita. Por isso, a empresa solicitou aos negociadores do Mercosul para lutar por uma cota de 120 mil toneladas.

Segundo Assunção, toda a produção de banana do grupo no Brasil é exportada. Foram quatro milhões de caixas no ano passado, no valor de US$ 23 milhões. A Del Monte produz também também abacaxi e melão no Brasil para exportação. (AM)


Jornal Valor Econômico – 20/7/2004
http://www.valor.com.br

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