Assis Moreira De Genebra

Por proposta do Brasil, os Estados Unidos e a União Européia aceitaram uma redução de 20% em sua capacidade de subsidiar seus agricultores desde o primeiro dia de um futuro acordo agrícola da Rodada de Doha.

Se esse entendimento entre os cinco – Estados Unidos, União Européia, Brasil, Índia e Austrália – for incluído no texto agrícola da OMC nesta sexta-feira e aceito pelos outros países, significará uma redução de cerca de US$ 30 bilhões nos subsídios distorcivos ao comércio que americanos e europeus, juntos, são autorizados a dar pelo acordo agrícola em vigor.

A posição dos cinco principais atores da negociação foi explicada ontem pelo ministro Celso Amorim, o negociador americano Robert Zoellick e o comissário europeu Pascal Lamy ao diretor-geral da OMC, Supachai Panitchpakdi.

Supachai , saudou o acordo entre o NG-5 como “importante impulso” nas negociações da OMC. Mas preveniu que nenhum acordo agrícola na OMC é possível sem o apoio do resto da entidade.

Indagado se estava otimista sobre o fechamento de acordo nesta sexta-feira, Amorim disse ter um “julgamento cauteloso”, mas que discordava de avaliações de que o texto não será ambicioso. Os brasileiros indicam que o resultado poderá ser bem melhor do que teria sido em Cancún.

Segundo fontes que participaram das reuniões, foi o compromisso sobre “down payment” proposto pelo Brasil para cortar subsídios desde o primeiro dia do acordo que pavimentou o terreno para se fechar um entendimento entre os cinco. O corte de 20% só foi aceito pelos EUA se aplicado sobre o limite máximo, que para os EUA é por volta de US$ 49 bilhões e para a UE de US$ 100 bilhões por ano.

Na prática, a redução será menor porque os gastos de ambos são mais baixos. Mas negociadores notam que houve um avanço comparado à Rodada Uruguai, onde o corte foi de 20% apenas sobre uma parcela das ajudas distorcivas ao comércio, que afetam a agricultura dos outros países.

Em troca dessa concessão, Washington conseguiu uma modificação na categoria de subsídios de “caixa azul” (vinculados a limite na produção) para acomodar alguns programas agrícolas americanos, condicionado a disciplinas que serão negociadas mais tarde.

Além disso, os cinco acertaram um limite nos gastos da “caixa azul” , fixado a 5% do valor total da produção agrícola.

Assim, esse tipo de subsídio passa de US$ 22 bilhões para US$ 12 bilhões no caso da União Européia. Quanto aos EUA, que não tinha “caixa azul”, transferem para ela US$ 10 bilhões que estavam em outra categoria de ajuda considerada distorciva ao comércio.

A expectativa é de que o texto do mediador Tim Groser leve em conta as decisões tomadas pelo NG-5. Mas certos analistas não escondiam a preferência pela ausência de cifras no texto que sairá hoje, para permitir barganhas melhores na futura fase da negociação.

Para Pedro de Camargo Neto, o único representante do agronegócio brasileiro que está presente em Genebra, se o acordo sair como foi delineado no NG-5 trás poucos ganhos para o Brasil, mas é o possível nas atuais circunstâncias.

“Ganhamos com a eliminação dos subsídios a exportação, mas há perspectivas incertas nos outros dois pilares (apoio interno e corte de tarifas)”, disse. “Mas o setor agrícola não estará descontente. Só espero que o Brasil não pague muito em produtos industriais e serviços, porque ai o acordo será globalmente ruim”.

O impasse prosseguia sobre o texto para a negociação de corte de tarifas de produtos industriais e de consumo. O mediador acabou desistindo de encontrar um entendimento e ficou de fazer sua própria proposta. O Brasil voltou a indicar que antes, durante e depois de Cancún não aceitava a negociação setorial para eliminar tarifa em determinados setores. A razão é simples: o temor é da concorrência não apenas com os países industrializados, em eletrônicos e automóveis. Mas também com outros países em desenvolvimento, com eliminação tarifaria num setor como calcados ou têxteis, onde a dominação da China é inegável.

Havia ontem à noite também problemas sobre o que fazer com a questão do algodão. Países africanos, prejudicados pelos enormes subsídios americanos, insistem em obter um calendário para cortes.

Jornal Valor Econômico – 30/7/2004
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Mônica Scaramuzzo Da Basiléia, Suíça

Não é difícil fazer Michael Pragnell rir. À vontade, este inglês de 57 anos, CEO da Syngenta, disse nesta quinta-feira ao Valor, na Basiléia (Suíça), que já esteve várias vezes no Brasil e que o país tende a ganhar importância para a multinacional no futuro próximo, em uma estratégia que também deverá privilegiar Argentina e Leste Europeu. Paralelamente ao desenho deste novo “mapa” dos negócios, a empresa também desperta para novos mercados, como enzimas para ração animal e biocombustíveis.

Simpático, o inglês disse que só sorriria para as fotografias se contassem uma piada. Mas nada tirava seu bom humor, nem mesmo o forte sol – atípico na Suíça mesmo para o verão. A alegria veio com os resultados globais da companhia no primeiro semestre, considerados extremamente positivos. A receita alcançou US$ 4,588 bilhões, 12% mais que em igual período de 2003, e o lucro líquido fechou em US$ 964 milhões, com um salto de 83%. O Ebtida também aumentou, 17%, e atingiu US$ 1,367 bilhão. A múlti também reduziu seu endividamento líquido, de US$ 1,063 bilhão para US$ 590 milhões.

O bom desempenho, destacou Pragnell, refletiu o crescimento das vendas nas duas divisões do grupo – defensivos agrícolas e sementes. As vendas de defensivos tiveram destaque especial nos países da América Latina, sobretudo Brasil e Argentina, e também nos países europeus, que tiveram um clima melhor que na safra anterior. Somente as vendas globais de fungicidas da empresa aumentou 19% no período, por conta, especialmente, da ferrugem da soja.

Do faturamento global da Syngenta no primeiro semestre, a divisão de defensivos respondeu por 81,5% das vendas, ou US$ 3,742 bilhões (incremento de 11% sobre o primeiro semestre de 2003). A área de sementes ficou com os 18,5% restantes, ou US$ 846 milhões (elevação de 15% sobre igual período do ano passado). No primeiro semestre de 2003, a participação dos defensivos nas vendas foi de 82,1%, e a de sementes, 17,9%. A expectativa é que a área de sementes avance um pouco mais, de acordo com o executivo. “Mas são dois mercados complementares”, justificou.

Pragnell volta a sorrir ao detalhar a nova geografia que começa a ser desenhada pela Syngenta, hoje ainda concentrada no Hemisfério Norte. O executivo garantiu que a companhia continuará brigando pelo competitivo mercado dos EUA – onde é líder em defensivos -, mas reitera que as atenções estão voltadas à América Latina e ao Leste Europeu, este com novos consumidores que deverão dar maior robustez às vendas européias, estagnadas nos últimos anos.

Por enquanto, as vendas na América Latina representam pouco do faturamento total do grupo. Neste primeiro semestre, a região respondeu por 3% das receitas totais com sementes e 9% do faturamento em defensivos agrícolas. Dos US$ 337 milhões de receita na América Latina para defensivos – 39% mais que no mesmo período do ano passado, o maior crescimento percentual entre as regiões em que a Syngenta atua -, o Brasil respondeu por 60%. Em sementes, o Brasil também abocanhou 60% dos US$ 27 milhões de faturamento latino da divisão. O executivo disse que essas regiões devem crescer mais que as demais, já dominadas pela Syngenta. No mercado brasileiro, a múlti suíça disputa a liderança com a alemã Bayer.

Para fortalecer a participação do Brasil em seus resultados, a Syngenta promete investir cerca de US$ 5 milhões no país neste ano, dos quais US$ 1 milhão serão destinados à ampliação de sua capacidade de produção de fungicidas, que atualmente fica entre 3 milhões e 5 milhões de litros, volume suficiente para atender toda a América Latina – exceto o México. Conforme explicou em entrevista telefônica Valdemar Fischer, presidente da área de defensivos para Brasil e América Latina, a empresa lançou neste ano um produto para combater a ferrugem, mas ele ainda é importado pela filial brasileira desde a Europa, onde o princípio ativo foi desenvolvido. Os outros US$ 4 milhões serão investidos em marketing e novos produtos.

“O Brasil poderá encerrar este ano com aumento de 50% nas receitas, como aconteceu no ano passado”, afirmou Fischer. O faturamento da Syngenta do Brasil em 2003 foi de US$ 552 milhões.

Dentro da filosofia de novos mercados que a Syngenta está buscando, o Brasil é o segundo, atrás do México, para a comercialização de enzimas em ração animal, cujo metabolismo acelera a digestão animal. Esse é um mercado que a Syngenta prospecta e aguarda a liberação dos governos dos EUA e da União Européia para comercializar essas enzimas, segundo Jeffrey Beard, diretor global da divisão de sementes da multinacional.

Também do Brasil foi tirado o modelo de biocombustível que a Syngenta começa a ser desenvolvido na Inglaterra. Pelo modelo, a empresa deverá extrair combustíveis de óleos vegetais. No caso inglês, a colza.

Também no foco dos suíços está a aprimoramento da biotecnologia, explicou John Atkin, diretor global de defensivos do grupo. A companhia não acredita que as vendas de sementes transgênicas na União Européia saltem com a maior flexibilização do bloco, mas acha que o segmento será forte no Brasil, mesmo com a lei de plantio do grão modificado ainda à espera de aprovação no Congresso.

A crescente área de biotecnologia demanda investimentos da empresa da ordem de US$ 150 milhões por ano. Outros US$ 450 milhões são para pesquisas em defensivos e US$ 120 milhões para sementes, detalhou Pragnell. Para os próximos três anos, a empresa também quer avançar nos mercados de sementes de flores – sobretudo na Ásia e na África -, em alimentos frescos e vegetais.

Contexto

A Syngenta pretende levar até o fim o processo antitruste envolvendo direitos sobre transgênicos que move contra a multinacional americana Monsanto, afirmou Michael Pragnell, CEO da Syngenta. Esse é o quarto processo da multinacional suíça contra a companhia dos Estados Unidos. Segundo Pragnell, a Monsanto promove concorrência ilegal, uma vez que proíbe a múlti de comercializar o milho GA21, cujos direitos de comercialização foram adquiridos pela Syngenta em maio deste ano. Acreditando ser um monopólio, a múlti suíça entrou com processo na Justiça da corte de Delaware, nos Estados Unidos. “Vamos lutar pelos nossos direitos na Justiça e mantermos o processo”, disse Pragnell.

Jornal Valor Econômico – 30/7/2004
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Maria Lúcia Delgado De Cabo Verde

O presidente da estatal Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Clayton Campanhola, que acompanhou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a viagem a dois países da África – Gabão e Cabo Verde – afirmou ao Valor que a empresa pretende intensificar os contatos com o exterior para que pesquisas científicas brasileiras possam ser financiadas por instituições públicas dos Estados Unidos e União Européia.

A Embrapa foi acionada por Lula para fornecer tecnologia aos países pobres africanos com intuito de alavancar a produção agrícola, especialmente de mandioca. O Brasil cederá material genético ao Gabão e Cabo Verde, com a meta de garantir maior produtividade.

Campanhola lembrou que a Embrapa teve seu pior orçamento da história no ano passado, e conseguiu elevar em 35% o volume de verbas no orçamento de 2004 – para R$ 223 milhões -, mas os recursos ainda são insuficientes para o enorme potencial científico brasileiro. “Se ampliarmos o orçamento, ganhamos mais autonomia”, disse ele.

A chave para resolver os problemas orçamentários seria a busca de financiamentos externos e de recursos de fundos setoriais, ligados a outros ministérios que não o de Ciência e Tecnologia, de acordo com a opinião do presidente da Embrapa.

“Há vários programas e fontes de recursos fora do MCT, e é bom ampliarmos isso para expor a competitividade da Embrapa”, argumentou o executivo. Campanhola lembrou que algumas pesquisas atualmente já são financiadas pela iniciativa privada, por meio de fundações privadas nacionais. “É uma relação bem transparente”, garantiu.

Campanhola disse que no mês passado foi assinado o edital para liberação de R$ 7,2 milhões para projetos da Embrapa, com recursos de fundos setoriais – Fundo Setorial de Agronegócios e do Fundo Setorial de Biotecnologia.

Os recursos são para três pesquisas: resistência ao fungo que causa a ferrugem asiática na soja; prevenção à gripe do frango (influenza viária); e prevenção à doença da “vaca louca”. “O principal é antecipar o problema, e não esperar o problema chegar para depois correr atrás”, afirmou Clayton Campanhola. No ano passado, a Embrapa captou R$ 53 milhões para pesquisas.

O contato no exterior já foi iniciado por meio de dois pólos de funcionamento da Embrapa em Washington e na França (laboratórios virtuais). “A Embrapa já capta recursos no exterior. Queremos fortalecer isso. No setor de biotecnologia há muito interesse. Precisamos ampliar os contatos, diversificar e trabalhar em pesquisa de ponta”, disse.

Campanhola está confiante na aprovação do projeto de lei de biossegurança, apesar de a tramitação não ter avançado no Senado por sérias divergências políticas. “Todas as versões discutidas até agora não trazem mudanças essenciais. Dão autonomia à CTNBio [Comissão Técnica Nacional de Biossegurança] para tomar decisões”, afirma.

O presidente da Embrapa acha que saudável separar a comunidade científica da esfera de decisão comercial. “As duas competências têm que ser respeitadas. Pode haver interesses estratégicos que a ciência não resolve. Essas duas instituições muitas vezes precisam estar separadas. O que não pode haver é a politização da CTNBio”.


Jornal Valor Econômico – 30/7/2004
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Da Redação

A 3ª Conferência Científica do LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia) mostrou que o tripé ciência-tecnologia-políticas públicas pode garantir o futuro sustentável da floresta Amazônia em bases sólidas. Segundo o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e um dos organizadores do evento Paulo Artaxo, a ciência está comprovando que é possível formular estratégias sustentáveis de desenvolvimento mediante o estabelecimento de políticas públicas compatíveis com o conhecimento gerado:

– Só o conhecimento cientifico não basta para preservar a Amazônia; precisamos de políticas públicas bem fundamentadas e baseadas em conhecimento sólido.

Segundo Artaxo, tais políticas devem ser implementadas dentro de um amplo consenso entre o setor agropecuário, organizações não-governamentais e governos federal, estaduais e municipais. Para ele, só assim a estratégia poderá ser implantada com sucesso. Paulo Artaxo, que também é coordenador do Instituo do Milênio da Amazônia, ressaltou que as novas descobertas do LBA ampliaram o conhecimento cientifico acumulado capaz de permitir o desenvolvimento sustentável da região.

– Até cinco anos atrás eu não diria isso – enfatizou o pesquisador, acrescentando que nesta época o conhecimento ainda era bastante limitado ao simples funcionamento do ecossistema amazônico. – As novas descobertas do LBA são muito recentes e absolutamente estruturais para o desenvolvimento de políticas públicas em bases sólidas.

Na palestra desta quinta-feira, dia 29, sobre degradação de pastagens e desenvolvimento da floresta secundária, o pesquisador Eric Davidson, do Woods Hole Research Center (WHRC), falou sobre a importância dos nutrientes do solo e as conseqüências da queimada – prática extensamente utilizada na região para limpar áreas e preparar o solo para a agricultura – para a floresta amazônica.

De acordo com o Davidson, o fogo reduz consideravelmente a quantidade de fósforo e nitrogênio no solo, limitando a concentração de elementos vitais para o desenvolvimento das plantas.

– Os vários ciclos de queimada acabam com a fertilidade do sol e compromete o futuro da floresta – alertou.

Para a pesquisadora e chefe da Embrapa Amazônia Oriental, Tatiana Sá, é fundamental que as queimadas na Amazônia sejam substituídas por novas técnicas de plantio. Como exemplo, ela citou o plantio direto com trituração da de vegetação que vem sendo utilizado com sucesso pela Embrapa em alguns projetos na Amazônia.

Erick Fernandes, representante do Banco Mundial, falou sobre a utilização do conhecimento tradicional para a regeneração de áreas degradas na Amazônia com o plantio de espécies nativas da região. A experiência, que vem sendo realizada com sucesso em alguns pontos desmatados da floresta, será aplicada em outras regiões devastadas.

– Aliar o conhecimento tradicional à ciência gerada pelo LBA abre uma boa possibilidade para a implantação de sistemas sustentáveis, produtivos e resistentes – afirmou.

Fernandes prevê que, em breve, os conhecimentos científicos produzidos pelo LBA na Amazônia poderão ser transferidos para outros países, sobretudo na África, onde a floresta do Congo caminha para uma devastação semelhante à registrada na Amazônia.

– É provável que no máximo em dez anos as cenas registradas na Amazônia se repitam no Congo. Felizmente, todos os resultados obtidos no Brasil servirão para ajudar o povo da África a manejar melhor seus recursos naturais e a preservar a floresta do Congo – disse.

A 3ª Conferência Cientifica do LBA termina nesta quinta-feira. Durante três dias, cientistas, pesquisadores e especialistas do Brasil e do exterior apresentaram mais de 600 trabalhos científicos que estão desvendando o papel da Amazônia e das mudanças do uso da terra no sistema climática do planeta, bem como a influência das mudanças globais no funcionamento dos ecossistemas amazônicos. Criado em 1998, o LBA estuda as interações entre a floresta amazônica e as condições atmosférica e climática em escalas regional e mundial.

As informações são da Agência Brasil.

Agrol – 30/07/2004
http://www.clicrbs.com.br/agrol/

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